Cotidianos

22/04/2008 20:25

Mormaço

Ela se fez de mansinho que ia, mas não foi. Medo se sente de gente que se conhece assim entre estar e não, no meio do nada, no meio da rua? Há de confidenciar tudo depois às amigas a cantada tão bem pronunciada pelo moço da padaria, bonito, esguio, belo de olhar azul acinzentado. Pediu-lhe o telefone, ela se recusou, disse que tinha namorado, marido, nem lembra que mais desculpa inventou, mas sabia onde estava e qualquer tempo que fora, poderia ali voltar, meio que sempre usara para disfarçar interesse, um tanto de pão de queijo e aquela rosca açuarada, demora não moço, que senão morro de fome. Trabalha dia inteiro, e volta sempre a mesma padaria. As amigas se lhe sorriem de sua beleza, fria e romântica, comportada e singela, sem sal, diriam outras. Ela sempre quis se ser, entre estar ou não. Mas o dia quente e abafado, dava-lhe pretexto de sobra de ver nos olhos cinzas do moço, beleza inconstéstil de quem nasceu para ela, e é só ela lhe fazer gosto. Comprou a melhor rosca àquele dia, e disse ao moço que quando saísse da padaria lhe mandasse recado no número embolado em papel de pão. Ele sorriu cabisbaixado e soltou um podêxá. Ela saiu embaraçada, e pronto se aprumou ao apartamento. Morava pequeno, no centro da cidade, quarto sala tudo junto meio a cozinha e sem plantas, pois quase não bate sol. A não ser esse de manhãzinha quando a entra pela fresta da cozinha acende um pedaço de papel de pão e vai-se embora. Ela se arrumou toda em festa, sorrindo para o mundo e as cores, que atrás de si não existiam. O rapaz se atreve, ligou, ela re-ligou, chamou-o a entrar. Comendo pão sóbrios que estavam, ele de ainda meio uniforme, ela toda que emperequetava, não ousaram a tocar em mãos e falavam de assuntos padaria, da hora morna das 10 horas à hora quente do meio dia. Os pedidos lhe eram confiados em muitas vezes por pessoas estranhas, sem educação, e de muito havia que se suportar atrás do balcão, aos caprichos, às mazelas, a voz irritante do outro. Ela a tudo ouvia em suave resignação e não quis se atrever a por a mão onde não devia, o tempo estava úmido e triste demais pra isso. Por dentro se ferveram e não ousaram toque, finda a rosca, um se despediu foi ao elevador. Se entretocaram e um beijo de despedida, e se despediram. Despedida, voltou à casa, percebeu que fervia de dentro, mas o pensamento exasperava. Era desejo puro e nulo de se banhar-se de toda para o balcão da padaria. Não quis. Fez-se aceno e no fim de se despedir, no afã de querer, talvez ele não quisera, talvez a hora não fosse aquela, talvez tempo mesmo fosse de aquecer para ao depois quiçá. Repetiria o mesmo e inquieto repetitório? Daria de difícil passaria ao largo esperaria... ? Semanas foram e o rapaz não ligou, desencantada que estava confessou as amigas o crime do não desejo, que só homens pederastas ousariam impor a donzelas tão charmosas quanto ela. Passou na padaria de novo, pediu pão de queijo, e ele demorou a entender o que queria. Sorriu para ela, colocou um a mais, piscou-a, ela fez de desentendida, e virou-lhe as costas contra a fila do caixa. Ela tremia enquanto se sentia bunda observada, umedeceu-se quando roçava meio que em contratempo o pênis do rapaz novo que lhe estava por detrás, olhou de soslaio, pagou a conta, o rapaz olhou para o vidro que lhe espelhava olhar no fundo. Ela fez de incontida, pediu troco e foi-se em passo apressado, arredado. Fervia.
enviada por Gustavo Alvarenga






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