Cotidianos

22/04/2008 19:47

Chuva

O velho se assentou e disse que sim, eram três horas da tarde, e a hora era lúgubre. Em clareira o céu se anuviava, diante aos pavores de trovões e em distantes relampejos horizonte. Voltou-se à casa e sem pressa desligou os eletrodomésticos em pavorosa solidão. A hora de chuva é hora de leitura, e se assentar sobre a mesa, em compasso com a cadeira que constrangia na bacia, era o que lhe restava diante a um mundo plúvio e hostil. Não se atreve a pestanejar, a natureza era bem mais que ele, contra as intempéries de Deus não cabe ao homem sequer um esbravejo que seja. Sorriu resignadamente ao abrir a torneira e constatar a secura que provável seria, devido à chuva e o estouro do encanamento mal posto na redondeza. Sentiu forte fisgo na veia da perna, eram de varizes torpes, esculpidas em alto-relevo, entorpecidas que foram de tantos tempos perdidos em máquina de datilografia no escritório da firma e em onde se apresentara durante mais 40 anos e de onde saíra tão logo lhe fora substituído o com putador. Eram quatro horas da tarde e o telefone range estridente pronto a lhe acordar, dormira na cadeira, a luz não mais existia, e temia nessa hora tempestosa também em antender telefone, mas foi. Era a filha. Comprometia-lhe com a mesada do neto, que morava longe, repetia-lhe os tão soberbos conceitos de como vestir, de o que comer, do que fazer de manhã, de como se portar diante a. Escutava tudo em misto de aflição e secura na boca, era difícil não concordar mesmo que discordando, e mais que ainda dizer-lhe palavra quando a saliva se lhe juntava e ousava ainda pronunciar verbo, que no instante em se expelia, era logo repelido, pela abundância de proferimentos do outro lado da linha. Do outro lado da vida, pensou. Quem agora irá dá por si de conta se ainda, como o fora antes, consideravam-o criança. A luz voltou, anunciou o motor da geladeira. Abriu-a, e lembrou que tinha sede, mas não havia água. Quis um copo de iorgute, mas não se atreve a ler ou confiar no prazo de validade, pois que em muito se esquecia das coisas, adquiridas, consumidas ou mesmo envelhecidas em geladeira. À sombra das horas já lhe apetecia, eram 6 e meia da noite, e talvez, lá pelas 7 vinha-lhe visitar Alfredo, amigo do escritório, a quem confiara horas de conversas e jogos de xadrez. Veio a campainha e o amigo. Veio a campainha e o síndico. Veio a campainha e um neto fora de hora, pedindo a avô dinheiro para o tão esperado momento em ganhar a vida só em cidade estranja. Disse que sim a tudo quanto lhe passou. Veio a noite e a serventia da cama. A luz do abajur e a solidão das horas negras. Sempre que podia e assim tempo lhe permitia no momento de carne e diáfano, promoter-lhe a vista da aurora. Esperança não lhe faltava a contemplar-lhe. Só no parque municipal da cidade, meio em vista ainda anuviada, criatura do asfalto, berço de madeira, olhos ríspidos que o fitavam, a atitude do guarda, a ainda paquera das velhas soltas que em um ainda lhe comprimentava. Olhou muito a sua volta e constatou dois peixe mortos em espaço descontínuo às águas da lagoa. Os olhos se encheram de uma certa revolta, parte de um poço havia se secado e a desculpa alegada pelo guarda fora a ainda chuva de ontem e o arrebentar do encanamento. Sentiu no momento aperto fio na veia do coração. Não se atreve a gemer ou interjeitar, mas dispensou a atenção guardião do guarda. Olhou para a árvores grandes, frondosas de aparência oniponente de aspecto vigoroso. Sentiu nas pernas o bambear constante de quem caminha cedo, antes que a cidade comece a contar as horas. Voltou à casa, portando ainda duas garrafas de água mineral, tomou-as como quem há muito nada tomara e em continuum com o universo sentiu na água seu acalentar. Sons de passarinho, de filhote no ninho, de besouro, de ventilador, de motocicleta, de ambulância, de folha batendo, de carro rangendo, de fio esvoaçando, de vento ventando, de gente correndo, de grito, de gotas, gotas, gotas, de borracha asfalto e água. Chuva.

enviada por Gustavo Alvarenga






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