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02/04/2007 01:30
Contos ayahuascados I
A sensação foi lhe tomando de leve, em início sonolenta e calorosa, foi-se lhe sentindo o estômago, constatando a sua existência entre as mamas e os genitais, entre os gritos e os sentidos. Não teve medo, mas algo lhe prenunciava situação desesperadora, pois sem ao menos sentir que estava sentido, algumas lágrimas rolavam-lhe a face e uma pressão na fronte vinha como agulhadas, mal por ele notadas quando viu pela primeira vez.
Fechado os olhos estava em um matagal, tons em púrpura recheavam o lugar luminoso, onde se reuniam seres antes nunca nominados, mas que se lhe aproximavam e lhe espetava na fronte. Ouviu sons em uníssono e não soube localizar de onde vinham, o logos lhe chamou a volta e percebeu que estava bem. Não tinha como explicar que estava bem, embora o desespero tomava-se lhe todo. No abrir e fechar os olhos saiu da paisagem de outrora e no fundo viu seu pai, rememorou as suas últimas palavras antes de partir viagem, era sábado e ele pediu que cuidasse, incluso mãe e irmãs. Sentiu-se como que traindo as suas ordens e mal cuidador. Lembrou-se do jardim da casa que não aguava, da irmã solteira e carente para quem não ligava, da mulher com quem mal pouco fala, da mãe caduca para quem não tinha paciência. E quis por um momento re-viver. As cenas de sua falta de zelo se repetiam no trabalho, mal sabia o nome da secretaria novata, viu que Raimundo necessitava de mais atenção para o cumprimento das tarefas diárias, viu que suas contas estavam atrasadas por demais e não quis. Pensou em sair de férias, em largar tudo, pensou na mulher e no seu carinho, os filhos já estavam por demais maiores para ser.
Ao sair a relva molhava a grama que sob a luz se evaporava saltando uma estranha fumaça, cor de ouro. Os mosaicos se multiplicavam na brita e o céu esquadrinhava-se como que pintado por Da Vinci. Uma estrela se deslocou e lhe segui, quis lhe contar segredos e ouviu. Ouviu como som que não se pronuncia, como algo do íntimo que lhe vinha, e à estrela respondeu que sim. Observou que tudo em seu tempo vive graças a doação misericordiosa do amor. O amor da chuva pelas plantas, das plantas para com os insetos, dos insetos para com os homens, dos homens para com as plantas e o ciclo se repetia e se refazia no brilhar da lua lá de cima banhando o céu de uma luz boa e gratuita. Guiou-se um tempo pela luz lua. Viu também que era sua mãe, pegou torrão de terra e o amou como matéria bruta de onde tudo que é de si deriva e viu também que as formas antecedem as visões. Fractais, um redemoinho de luzes e cores, desfilavam-se consoante às sensações do estômago, quis reaver o que antes havia perdido quando ainda infante brincava com os musgos das pedras, imaginando seres invisíveis que habitavam, antes de tudo, as profundezas minerais. Pegou em si, disse que sim, a onda veio de todo corpo e se esgueirou a lançar jato de tudo para fora, quis mais, deixou-se invadir de novo. De si a gosma à terra, a terra, olhou acima o céu.
Ele, a gosma, a terra e o céu, se preenchiam na curvatura do universo refratário da luz que é boa e tudo gera. Viu as mazelas, pensou nas guerras do mundo, do sempre presente ódio à raça humana que só os humanos possuem. Sim intuição essencial. Tudo amava e só em nós o ódio. Viu nele os desamores, o ódio sobretudo a si, aos seus cuidados foram lhe entregues coisas, e mal se cuidava do corpo: comia mal, dormia ruim, os cabelos ressecavam-se, a pele enrugava-se, dedicava-se pouco e muito pouco aos queridos que gratuitamente lhe amavam desde antes.
No início a forma. Gestalt. Ela em tudo se lhe aparecia e viu o mundo das idéias de Platão se lhe desfilar pela mente, pensou na mãe de todos no pai de tudo, e seu Pai de novo.
Pai com quem agora se aparecia mais, quando olhava no espelho e seus traços como nunca antes o foram eram ele. O antebraço, como se parece, os olhos, os olhos não, há um que de feminilidade nesses olhos, há uma íris que cuida ao olhar e também seduz. Lembrou-se que amava e odiava por ali. Homem de poucas palavras aprendeu a se expressar pela fronte e falava muito pelo olhar. Sundeliamente seu corpo se desfez em sua frente e viu o mundo em múltiplas perspectivas, viu que tudo era forma, mas no mundo são prismas. O prisma que olhava, era por demais rígido, quis amplia-lo e sentiu um alívio pronto na traquéia. Pode-se falar também, pensou. A fronte se aliviou e o rosto voltou-se límpido contra o espelho em que agora se re-conhecia. Enfim se perdoou, subiu com alegria e nas alturas um homem, cajado em mãos se apresentou filho da terra para onde retornaria. Viu que terra é mãe céu é pai, e no mundo somos dados de um jogo infinito entre pólos que em momentos sublimes se re-únem. Não pestanejou ao falar quando de novo voltou a casa, aprendeu também um pouco do silencio necessário ao ouvir, e do silencio interno ao pensar. Viu que tudo era logos, e em logos foi-se construindo. Em terceira pessoa quis não ser mais, e anda ainda em busca a sua forma originária.
enviada por Gustavo Alvarenga
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