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29/01/2006 21:05
Na Lapa
Entardece na Lapa de modo diferente vida quente que agora se refresca com uma fina névoa brisa que nos arcos são sombras. Continua a vida de quem ali se parou, como ele. De fino trato, terno branco, chapéu em mão, sapatos sempre bem lustrados, engraxatados. Malandro de Rios atrás, era figura desponte que se aliava aos túmulos do samba e com a mesma cuíca perambulava entre as rodas de samba, galanteando as mulatas, sorvendo cachaças, fazendo amizades entre intermitências. Não se passava desapercebido entre as putas e os malandros que indabitavam esse insonte pretérito que insistia em existir. Conhecido, sim. Não há uma só alma viva em Lapa que dele não se dê notícia. Sozinho, sim.
Entre milhares de famílias que em si coexistiam, o filho assasinado, a filha que se mudara para Londres, os sobrinhos que de pouco o visitava, e a imagem da mãe morta e do pai alcoólatra a sempre perseguir. Não era dado a amores embora os cultivava. O som da cuíca acalentava coração encachaçado e chorava saudades em tons menores de sambas antigos entre Noeis e Cartolas, entre Carvalhos e mulatas samba quente que desde ontem até hoje aterrorizava. Sedutor. Boa pinta. Os arcos marcavam-lhe a fronteira de território dominado, pois que não se atrevia a de ali sair em quanto tempo. Morava em pensão. Comia pão, Dia sim, dia não, malandreava por entre turistas desavisados, ou mesmo charlateava com as pompudas turistas do além tlantico.
Mas o entardecer o entardecia e sempre. Não era lá de se dá por carente, nem mesmo de dor se compadecia. Mas não se continha em essa hora. Acendia o velho cigarro de palha e sob a linha do céu penetrava profundo em cantos escusos, prisioneiro que ainda era de umas almarguras. O Velho sempre chorava escondido, sem que ninguém o notasse. Dor que ao som da cuíca ganhava voz. O mio do gato ressonando inda fundo. Pressas coisas sem nome se alinhava ainda mais. E olhava no espelho penteando seus ainda negros cabelos pesar de idade, e ai de amantes que ousassem em lhe intervir. Era mundo grande dentro e fora, fora dentro. Caiu uma vez num buraco e quebrou o pé, herdou um andar meio torto, mas que ele corrigia com um andar maroto malandrosamente num passo de dança. Das gafieiras era Rei, e não abandonava nunca sua velha camisa suada do Botafogo...
E foi em ida dessas a tarde, em lida dessas solitárias, vibrado que estava pelos sons de cavaquinhos, muito inhos, vindos de uma casa ao lado. Era uma dessas tardes quentes, era uma lua crescente. Era um estar poente em que Maria Aparecida apareceu. Do estar a Deus entregue olhou em olhos fundos de mulata bem dotada, vigorosa. Foi ter com ela e se lhe contou toda vida numa até as oito horas da noite. Seguraram mãos e ele se apaixonou primeira vez. Com seus já quase setenta, rosnou a cuíca naquele sábado a noite, e ela dançou, sapateou no seu inda peito não de todo rebentado.
Foi com Aparecida que ainda batucado de cachaça foi-se ter o Velho e o indadolescente indolente Manuel de Oliveira. Moça fina, família. Escândalo atenuado com o passar do tempo. E ela ainda em si se aventurava em noites em que ele já quietado, dormia em compasso de um ainda sono tarde de desde muito. Não se importava. Maria inda menos. Depois de tudo encontrado, foi saber que Maria era sua filha e a história acabou.
enviada por Gustavo Alvarenga
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