Cotidianos

18/12/2005 17:26

Do Velho

E que há sempre um cheiro nostálgico no ar, quando em Santa Tereza, propomo-nos em ir almoçar. Bolão, rei do espaguete, praça, crianças, famílias, acordes violão, gente, pura gente. Não se estranha um velho, já por de lá dos 70, caquético, bengala em mão, tentando avançar sobre os carros, em grito, queixando-se da pressa apressada de um taxista que lhe tirava o suporte necessário ao movimento. Desalento logo consolado por Bibi, como quem se consola consolando ela adverte-lhe o perigo, oferece o braço, o assento. Realça-me certo olhos azuis profundos, altíssimos e um certo sotaque, não por de mim identificado. Constato, como para aproximar conversa, a origem sotaque, de onde proviera, e quem de si era, ainda. Americano, from New York, from Miami, to Rio de Janeiro, to Belo Horizonte, agora Santa Tereza, sábado tarde, Bolão, um copo dágua, Professor de Inglês, Universidade da Califórnia, San Diego. Em tempo se desinteressou pela literatura, não gostava de nada produzido além de 1800, quis lingüística, saber das leis gerais subjacentes á criação poética, prosaica. Queria o fundo, o detrás, o in-timo, viera a BH. E que aqui há número de butecos suficientes a filo sofar, mas não do etílico que se buscava, mas da cultura que suportaria isso. Era ainda o detrás, o íntimo, intrínseco, voltamos a lingüística. Ali quedamos, no que nos faz ainda e por de cima: Falar. E assim pronunciava com dificuldades, a ainda língua portuguesa que aprendera vinte anos atrás, e se lhe fazia útil ao se nos dirigir, ao pedir um copo dágua, a gritar com o taxista, a renoscontar a pequena breve história que nos justificava o estar ali, diantenos, Santa Tereza, solitário, essa hora. Em tudo se parecia ter passado bem, heterodoxamente construira uma história, de alguém, que a margem da sociedade americana, viera aqui, buscar e talvez, o intrínseco, o intimo, o por detrás, do falatório entusiasmático dos botecos. A beleza da João Pinheiro,. As ruas sempre cheia e arvorosas de Santa Tereza. O velho dos olhos do homem não se diziam em solidão, ou sequer denotava o desamparo que lhe seria tão característico e mesmo esperado. Assim como estava parecia resgnado. O derrame, três anos antes, a vida sem família ou vínculos que se lhe poderiam proteger, cercar. Enfim se já lhe soubera tanto, poderia, talvez, em se bastar. Rodara meio mundo, e se não lhe faltava um passado de sempre a rememorar. Depois a festa de Santa Tereza, parada do Cardoso, moradores antigos, a praça se deu a mão em estado de graça, roda de samba. Vi time de futebol, com um dos Borges, indadolescente, olhar sobrevoado.Santa Tereza traz de volta: passados, rememorados, absortos, enfumaçados... Tempos infantes também se reviraram em um avistar uma casa, onde brincara, tempos remotos que só se traduzem em sensações, reviradas no peito, inda sem palavra... Vi os bares, e me enfureci com a sorveteria frente, a agredir a boemia constante, o por detrás da cultura que o suporta. Deu vontade de sair logo, lugar também que suporta restos, humanos, inumanos, nos casarios, nos remorantes, retirantes, dentro em mim. A soberba igreja da praça, o sempre e insuportavelmente além do tempo Bolão. Não quis Santê, e fui me apartar em bairro novo, de prédios modernos em seus eleva dores... Velho John. .
enviada por Gustavo Alvarenga






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