Cotidianos

21/10/2005 16:32
De todos era receio e falava por gaguejos, palavras entrecortadas, pensamentos que não se concluíam e um baixar de olhos desistindo. Detrás do óculos se escondia e nutria uma mania de sempre coçar a barba quando confrontado. Não se sabia bem o porque de que sempre, mesmo não tendo o muito que falar, aparecia junto a pessoas, na noite. Trabalhava dia, empresa de contabilidade, de 8 a 5, uma hora para o almoço, depois o transito, a janta, o sono. Quinta, Sexta, Sábado, ligava em gaguejos, para os colegas de escritório, para os ex-colegas de faculdade, e sem recusa, sendo do tipo que não fede nem cheira, era querido. Morava com a Mãe, Cidade Nova, Filho Único, e ela já beirava os 80, Pai morreu muito tempo, e Ele, só, era do tipo que, única ambição, era cuidar, prover e brigar com a progenitora. Para isso saia de casa, calado. Bebia boas doses de Cerveja, de Cachaças Variadas, Whiskies de várias idades e tamanhos, e jamais se vira o alterar de face, típico dos bebuns, ou qualquer gesto que denunciasse um descontrole de si para o Outro. Absolutamente Amigo, desses que se presta a dinheiros, favores, norteios, conselhos.
Em Dia se apaixonou por Beatriz. Era filha de fazendeiros do Vale do Jequitinhonha, gostava de Pequi e mesa farta. Ela fazia jantares pesados, alvo de reclamações da Mãe e de fastio dele. As duas brigavam cotidianamente. Ele se enfarou, mandou a mãe pro Asilo, mudou-se para Salinas. Vive hoje numa Fazenda, cuida de gados e de fazeres rurais. Beatriz levou coice de Mula Brava, sofreu traumatismo. Ele matou a Mula, enfurecido. No velório conheceu Lucimara. Ela artista plástica e tinha um ateliê em Paris. Eles se mudou para lá, a Mãe morreu, ele enviou a quantia para as despesas dos funeral, chorou três dias seguidos, depois passou. Lucimara não o quis mais. Ele se mudou para a Espanha, conheceu Rosália, teve um filho de nome fúnebre, não se compromissou, cansou-se de Rosália e foi para Portugal. Lá conheceu Romualdo, fizeram amizade, ele juntava dinheiro e ia abrir firma de contabilidade, em Belo Horizonte, no centro. Tornaram-se sócios. Saiam à noite. E em meio a discussões de futebol, mercadeos, políticas e obrigações cotidianas, o mesmo olhar cabisbaixado, o mesmo sorriso compenetrado, a mesma face dura detrás do óculos, recusava-se a contar sua história..... Morreu em 2003, atropelamento, em plena Avenida Amazonas, meio dia, por aí, um caminhão da Copasa, tipo Pipa, estava levando água para um bairro afastado. As pessoas ficaram sem água aquele dia, até fazerem o BO. Ele morreu mesmo. Sem destino, sem fim, sem chão, sem alguém. No Velório Contadores, até as 10:00, depois saíram pra beber o defunto. O corpo ficou ali, esquecido, à sorte, ao vento forte de Julho, sem história, sem memória. Vida que simples, pairou um tempo sobre o Mundo, e se desgastou... Como ele se chama mesmo? Não, não inventarei um nome a esse que viveu, já morto não apela sequer identidade, o autor está estupefado, transtornado, sua própria criação, inócua, paira agora só no caixão, tal qual esse texto que se despede anônimo, a quem se endereçar....

enviada por Gustavo Alvarenga






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