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13/04/2005 21:41
Tempo
Afonso Pena essa hora sempre engarrafada. Sinal fechado, mãos do lado de fora da janela, retro-visor, um amigo de infância, 20 anos sem ver, reconheceu-o de pronto. Menção não fez em fazer nenhum gesto que lhe denotasse a presença, dado tanta ausência em tempo na irrisória geografia que separam autos, em Afonso Pena. Olhou mais, viu os gestos do amigo, a mão no queixo, o olhar vagaroso para nada. Foi-se rememorando, cenas de um outubro em Santa Maria de Itabira. Viagens para um certo sítio em Conceição do Mato Dentro. Amigos comuns. Dirigia-se uma Kombi, dessas que entregam comida congelada, ou uma Van. Sorvia na boca uma goma e parecia feliz, embora inculto. À frente outros carros e várias ultrapassagens ainda por fazer a se chegar. Chegar no instante em que reunião o esperava. Teria mil assuntos, cafés, discussões, e uma volta à casa, fim da noite. A solidão do lar não lhe aprazia, era sempre o mesma coisa, o mesmo modo de estar com a esposa, a mesma fossa do filho mais velho, e há muito os assuntos eram os mesmos. Hoje, não sabia se contava ou se reservava a si, a intimidade necessásria de pelo retro-visor ver-se em passado e apenas espiar, sem o incomodo do recíproco olhar. È que dos veículos só se vêem de trás. Amanhã de tudo novo começa, à frente. Silvos contínuos, hora de arrancar, setas se ligam em laterais, o lado proporciona a vista mútua, poderia, se quisesse, dar a si de vista. Mas não o soube, ou buzinavam-se demais, ou não quis, as faixas se desfizeram em trifurcações. Do retrovisor já o amigo não via, tampouco nenhum, dos tantos que estavam. Desde aquele dia os dias pareciam-lhe sem fim, é que além de seu passar e do seu a fazer, os fantasmas do feito, do desfeito e malfeito e não feito, o assombravam, desde manhã no recordar do sonho. Passou a se demorar muito em algumas coisas, e reviu fotos infantes, falantes. Volveu certo dia às cidades, sem falar a ninguém. Escrupuloso como era, não se sentia em vida obrigado a se pronunciar sobre o que de dentro, eram peças museus revivadas, despudoradas. Sentiu estranho, ao procurar certa vez, mesmo sem saber o que era, numa dessas máquinas shopping center. No mais, pairava, como uma folha despetalada, desenraiz. Futuro foi sempre presente, atenuado pelo padecer contínuo dos corpos. Tomou café esse dia, depois banho, reparou numa marca entre coxas, pequeno rasgo de cascalho daquela vez em Santa Maria de Itabira... .
enviada por Gustavo Alvarenga
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