Cotidianos

14/04/2005 14:36

Astúcia

Não era por falta de astúcia que se dirigia sempre ao mesmo local, todos os dias, à hora do crepúsculo, a espera de alguns trocados de que porventura motoristas pudessem lhe oferendar. Dizia sempre mesmo: Moço to com minha filha doente no hospital o senhor poderia me ajudar a comprar algum remédio para ela. Até às oito trabalhava, depois batia vontade pura, de cachaça. Passava noite se embebendo, até não se poder mais, depois dormia: albergue. Acordava ressacado e pronto a se de novo, oferecer-se. Subia o alto da Pedreira Padre Lopes, soltava pipa com os moleques, costumava pular corda com as meninas, ou mesmo, no que da sempre a batuta poderia lhe proporcionar, socorria-se nos jogos, isso já pelo meio dia, na praça sete. Era de quase nenhum pertence, a mesma bolsa, herdada do avô, cargando uma velha calça, um lenço e um quase nulo pente que recolhera na rua. Descuidado é que não era; o mesmo banho nos fundos de um estacionamento à mesma hora que se preparava para o laborioso trabalho de pedir. A filha fictícia, a doença e a morte que rondava os Eus não precavidos, já lhe fora, antes, sinal de um nada bem, mas ao que hoje, repensado as oportunidades, em si se conformou. É que em outras ficções não se coubera, e essa última, pareceu-lhe a mais que se lhe propiara. O lado do espelho que retinha de uma vez, eram de outras faces por si escondidas, tempos remotos de um não sei o que que vivera no Norte, já não de si se alembra. Houve apatia, certa feita, mergulhado em sua lida. Correspondido que não foi de um amor que cativara, como sempre, muito além do desamparo alheio. Em meio se vagueou pelo mundo fora, e nas montanhas, sem saber por que donde o acolheram. Em muitos se tentou: porteiro, zelador, ajudante de oficina, caseiro em um sítio na região de Nova Lima. Faltava-lhe, todavia, a substância de em ser de si de próprio, o jogar-se na rua, o mentir, já lhe proporcionava, além de mais dinheiro, certo prazer incontido de olhar no olho e se fingir. Mas é que de dentro tudo fazia sentido, algo em nele se reconhecia doente, talvez fosse mesmo filha, talvez meio mulher, talvez meio criança, e às vezes apegava-se em nisso quando ao mirar a Misericordiosa Casa Santa, tendia a querer em ter alguém a quem se ocupar. E como não tinha, e como lhe era custoso de si se doar, no depois do desfecho, confortava-se com o reconhecimento alheio que apostava na existência dessa menininha moribunda em algum leito imaginário de um hospital. Não era só dinheiro, era o reconhecimento de uma verdade que se fazia acreditar para se manter, era muito bom. Depois a não filha, o desalento, o desapego, a vontade pura de se... A cachaça, os cotidianos assuntos dos cenários das vias. Poderia bem de ser a vontade se lhe ganhando a cachaça imunizadora, nesses dias parava no Raul Soares, outros imunizantes industriais vinham lhe cobrir o desalento, e parava. Sonhava com um mundo outro, oras vezes, e isso já não lhe causava transtornos, nesses tempos brincava de boneca, felicitava com gracejos e vozes infantis quem quer que fosse ao mínimo se lhe dirigir olhar. Findo o Hospital, as ruas trafegadas de gente. Estranha gente que moravam dentro de autos a se movimentar, gente que se compadecia, e lhe creditava verdades. Era ali, em seu território que se de todo doava-se, e lhe cabiam ainda alguns querereres. Apanhou da polícia uma vez, cocorócos na cuca que doíam. Cabeça que já não cria no constante do mundo, uni verso. Versos de sempre se soltavam, em frases distonantes, desconcertantes. Maldita fome de querer, maldita sede de se Ser. Houve tempos em que se desafiara-se a pular do alto do Acaiaca, esse fim já se passou, já não queria assim. Repousa na cama, rádoi de pilha, Itatiaia, olor peculiar, cheiro de gente com pó, roncos, é absurdo estar vivo, é absurdo, pensou: Há de ser muito esperto, astuto!
enviada por Gustavo Alvarenga






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