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30/01/2005 15:39
Sonhos
Bem de manhã ela se levantava, sem pestanejar. Era bom viver: seus cachorros, o barulho dos pássaros, o homem que lhe estava ao lado, tudo a lhe envolver, e ela envolvida em tudo. Fazia café de manhã e cantava. Aguava as plantas, pagava contas, dizia-se sempre bem. Cativava gente, que vinham de longe só para revê-la, e se fazia biscoitos, tortas, lindos bolos confeitados, roscas trançadas, açucaradas. Depois ouvia-se Chico Buarque, esperando. Também era dada às pinturas, e se dedicava horas a se imprimir em tela o que se viva. Eram sempre paisagens vivas, mas de cores suaves, serenas. Era bonita, e disso sabia, mas não de uma beleza monumental, dessas que ao atrair se se inibe. Era beleza constante, refletida nos olhos e evidente no sorriso de dentes brancos, enormes. Angústia funda, bem guardada. Certa vez ficou em dúvida se se amava mesmo o homem, pensou no Cláudio, aquele dos tempos da faculdade, ligou pra ele de tarde, só para ouvir-lhe a voz, desligou prontamente. Nesse dia ficou pálida, baixou pressão, vomitou. Ninguém viu ou sabe, e ela guarda fundo, magoar que não iria quem quer fosse, embora tivesse muita dificuldade em mentir. De sua mãe trouxe as prendas de uma boa mulher do lar, ligava-lhe contando os detalhes das roupas, das casas, dos a fazeres. Dizia-lhe sempre de bom modo e lhe visitava constante aos domingos. Não lhe tinha dedicada ainda a vida aos descendentes, preferia esperar, viver só pareceria-lhe mais confortável, inda mais que já se lhe tinha tanto o que fazer. Num canto do armário bem atrás das gavetas, escondia cartas a si mesma, e nelas estavam impressos seus sonhos. Passou-lhe uma vez uma idéia escondida, que logo esqueceu, mas de em quando, sentia certo aperto no peito, que não sabia o que era, nesse tempo chorava, chorava à toa. O céu lhe acalmava e quedava mirando o poente, esperando as primeiras estrelas luzirem. Teve medo, certa vez, de tempestade. Ficou imóvel num canto segurando um travesseiro. Quando o homem chegou abraçou-lhe forte, e dedicou-lhe um longo beijo, que jamais talvez lhe houvesse dado antes, depois dos votos. Lá não muito lhe apetecia o sexo, fazia-o rigorosamente quando solicitada, sem dor, pavor, com serenidade, mas sem tesão. Gozava era com as plantas, os quadros, a culinária. Sentia-se invadida de uma felicidade repentina, quando, após o coito, passava um café. Não lembra de quando o amor lhe fora bom, talvez nos tempos antes, mas não lembrava, e uma angustura enorme lhe dobrava em lágrimas. Certo dia, porém, não quis acordar, por mais que o homem a ela implorasse, disse lhe que sentia frio, e queria o quente das cobertas. Levantou às 10:00, sem mesmo saber pelo que. Chorou o dia todo, e sentia dores no abdômen. Pensou em morte pela primeira vez, rezou um pai nosso, uma ave maria, melhorou. Teve tempo ainda de sobra para receber pessoas. Desde esse dia, não foi a mesma, mudou algo. Um a um foi definhando o armário, retirou alguns sonhos por detrás da gaveta, e não se sabe o que aconteceu...
enviada por Gustavo Alvarenga
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