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02/02/2005 12:43
Na Cara
Foi quando jogando bola, notou com espanto que se concentrara demais nas pernas já cabeludas do Renatinho. Sentiu arrepio, mas não se atreve a dar por si de conta. Veio a primeira namorada, por quem sentia alguma repulsa, quando, ousada, roçava seu pênis de forma mais persuasiva. Manteve uma sincera amizade, e foi com quem, mais tarde, conversando sobre os tempos de juntos, que acabou se inventando. Inventou-se Gay. E Gay passou a ser. Pelo tempo foi se sendo, todavia, encoberto: famílias, trabalhos, convenções sociais. Não se queria assim diante a muitos que o olhavam, e acabou se nutrindo de uma constante mania de ser visto. Enjaulado que era em seu desejo, se reprovou. Quis suicídios, quis embora pra Paris, quis se travestir. Passadas as delongas, foi se dar com Marcinho, apaixonaram-se, viveram juntos, anos a gostos. Em por fim, não se suportaram mais, mais ao depois já se queria só e como era. Morava sozinho em Santo Antonio, era das Artes, das Letras, das Plásticas, mas se sustentava com os cortes de cabelos. Foi tendo assim, vida boa. Elegante, freqüentava as altas rodas da high society cult belo horizontina, e aos poucos se escavando com yoga e análises, foi se achando. Agradava-lhe o estilo bicha quando em vez, indispensável à conquista da simpatia da clientela do salão. Sabia-se viril também, e se gostava ao se ser, quando, com entusiasmo expunha seus artesanatos aos homens de boa fé, que ora ou outra, na feira de domingo, comprava suas obras. Namorou, de novo, não quis mais. Se meio que promiscuiu-se um tempo. Viveu platonismos, sentiu-se sozinho. Quis também mulher. Ao largo se escolheu em solidão. Amigos vários, de todas as estirpes, amigas confidentes, confiáveis. Era bom ouvinte, e lhe era fácil nutrir-se em simpatia. Empatizava-se sobretudo com donas de casa carentes, e lhe conselhavam as artimanhas dos relacionamentos. Assim se passava em vida, e vida se lhe passava. Bem que um dia, de pronto se arrumado, pronto a ganhar noite, pensou de si não pertencer. Deu-lhe um estranhamento, uma náusea contínua, um sentimento de despertença. Atribulado reconciliou-se, pensou em ser nada não, frescuras de bicha. Foi se a night, regada a balas e doces, néctar dos prazeres. Sentiu ânsia, sentiu fome, sentiu tesão, transou, lambuzou. Sentiu vazio depois, deitado na cama de um motel barato com um rapaz malhado ao lado. Olhou-lhe muito o corpo, olhou-se seu corpo. Os corpos meio a meio na cama e o vazio de esperança. Deu-se um suspiro. Não se conteve, mordeu o rapaz, até lhe tirar sangue, ferindo-lhe ainda a tapa, e unha. O moço não entendeu, mas como o corpo lhe sobrevivia, tentou apaziguar. Não sem remorso, foi lançado contra a parede, humilhado com gritos dilacerantes, de doer fundo. Imaginou cortar um pedaço do rapaz e guarda-lo para sempre em formol. Imaginou matando o rapaz, Imaginou-se matando. A cena não lhe abandonava, enfim quis volver a casa. Tomou ainda um copo de vinho e tentou dormir. Teve pesadelos. Acordou sobressalto, comeu uma maça, e lá no fundo, bem no fundo, sentiu um dente se quebrar. Lembrou que tinha tomado na cara.....
enviada por Gustavo Alvarenga
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