Cotidianos

25/01/2005 18:26

Era uma Vez

Engenheiro. 45 anos, casado, pai de três filhos, proprietário de 2 carros próprios, um apartamento no Perdizes e uma casa em construção em Ubatuba. Trabalha numa multinacional de renome, seus filhos, torcedor do São Paulo, não perde um jogo. Levanta todos os dias às 6 da manhã, dá um beijo na esposa e bom dia. Leva um das crianças ao colégio a caminho do trabalho, joga futebol semanalmente com os amigos da Mooca. Faz caminhada ao fim da tarde no parque Água Branca, é hipertenso e tem colesterol alto. Parou de fumar quando tinha 36 anos no dia de seu aniversário. É católico. Vai a missa quando em vez com a família e os filhos. Tem medo da morte, reza para não morrer. Compra ações na bolsa de valores e sonha passar um reveillon que seja, em Nova York. Tem vários amigos, apelidam-se de batuqueiros, pois promovem um samba regado a cerveja e churrasco nos fins de semana, na casa do mais afortunado, no Butantã. Diz-se satisfeito com tudo, quando cansado joga playstation com os filhos e quando muito, vai pescar no pantanal. Recebeu uma placa da empresa que trabalha congratulando-o por 15 anos de serviços bem prestados, foi um dos dias mais felizes da sua vida, depois foram comemorar numa churrascaria a rodízio, a empresa pagou tudo, sentiu-se orgulhoso, cheio de si. Depois bebeu até, ficou tonto, caiu de bêbado. Todo mundo riu, consentiu, foi levado para casa pelo Jorjão, melhor amigo, desde os tempos de colégio. Riram até. Joga futebol até bem, marcou um golaço uma vez, deu um chapéu no Quinzim, chutou de primeira no ângulo, foi lindo. O jogo era decisivo, e o time empatava em 1 a 1, todos o abraçaram, sentiu-se todo dono de si. Nesse dia muitos elogios, muitas felicitações, dormiu sujo, bêbado, em êxtase. Também lhe fizeram festa surpresa em um de seus aniversários, não lembra qual, ficou feliz também, beijou a esposa. Sentia-se irritado ás vezes com o transito, com a derrota do São Paulo, com uma multa injusta que levou certa vez de um guarda. Cerveja quente e política também o incomodam, além da demora da esposa em se arrumar ou quando ela abusa do cartão no shopping. Gosta de músicas simples, com melodias de poucos acordes e letras singelas e repetitivas. Veste-se empresarialmente de dia, e caseiramente à noite. Tem um segredo: medo de escuro e de abismos, nunca contou isso a ninguém, embora o filho mais novo desconfie. Gosta de calcular e passa horas se debatendo em estatísticas sobre probabilidades improváveis, com isso se diverte, passa o tédio. Quando muito aflito rouba uns livros auto-ajuda da esposa, acha interessante, mas desinteressa-se tão logo ela se mostra interessada também. Certo dia vai morrer, dia X, hora N, cálculo improvável de ser probabilizado. Não se prova. Quando morrer uma angustura deve tomar no peito, um aperto imenso corpo inteiro, suará em bicas, e resignado fechará os olhos para o descanso eterno. Lembrarão dele como um homem Bom. Ele porém minutos antes de ir, lembrar-se-á que aos 9 anos, numa peleja com a turma do Manezim, acabou tendo sua bola furada, pela turma dele, nunca mais chorou depois disso...
enviada por Gustavo Alvarenga






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