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21/01/2005 20:25
Vivendo
Vida é procura incessante que não se acha, e quando se aparece plena, logo se esvai. Não merecia nem ser nomeada substantivamente é verbo gerúndio sempre. Artigos não há que possa cercea-la, enquadra-la, defini-la. È sempre essa coisa incerta, esse algo impreciso, esse fluido constante. Tampouco estaríamos e poderíamos dizer sobre ela caso não estivéssemos de dentro, vivendo. Assim dizer qualquer coisa a dizer já não é dizer autentico e a palavra nos escapa, artifício construído para nos mentir. Tem-se medo é verdade, de se diluir. Inventemos um porto, um sonho, um mundo, penduramo-nos nele. Fitemos com estranha severidade um algo a construir, que logo se some. Não se basta, embora tendamos ao delírio de em nós nos bastar. Não nos cabemos, desituados em terra inóspita, trilhemos. Floresta fechada, misteriosa, obscura a nos desafiar. Mas que será isso? Essas artes, esses sonhos, essas bobagens ilusões? Em que e o que nos prende, impulsiona a querer o simplesmente estar? Espaçam as metafísicas, os fundamentos últimos, o caminho verdadeiro, paira em todos a negação desse nada, púcaro vazio a suplicar incognoscível. Não se sabe, não se sabe, e é irrisório esse saber, ele se desfaz tão logo o primeiro vento do acaso o atinja e descontrói, a casa feita, o lugar seguro. Viver na angústia parece. Embebecer-se até... Ou acreditar, enfim, fazer-se acreditar que o plano certo, a linha reta, em lugar nos conduzirá, acertará. Não, não, não, não... Linhas retas tendem ao infinito e daí não se terminam, não se concluem. Sonhamos coisas pequenos e realizemos, pequenas coisas, de todas nos gozemos, nos sofremos. Pois sim. Na calada da noite quando a solidão enfim emvem, que é de esperança é desespero, por detrás da escrivaninha, rumino complacente o desespero de tudo, vingo o mundo, minhas letras vão lhe definhando o sentido aparente que tiveram a audácia de me vender. Tentar recuperar minhas podridões surrupiadas por sua roboticidade. Por detrás da escrivaninha me vingo do mundo cão e rio, rio, rio, rio: de escárnio.
enviada por Gustavo Alvarenga
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