Cotidianos

13/01/2005 02:15

Mesmosempre ou Inércia II.

Mais de uma noite meia, vazia. Sozinha, ela tenta se achar, num ou noutro que lhe dê a devida atenção. Enquanto o Eu perdido não vem, bebe. Cerveja música na mesa do bar. Conversas efadonhas, mesmosempre, repetindo-se. Ela desproveitosamente sai de cena. Tenta-se reaver no fundo, pensando, pensando. O álcool no sangue, as veias abertas, o meio desequilíbrio do corpo. Não pensa em se morrer, mas de tanto, acaba que se matando. Pensa em famílias, em dinheiro, num possível casamento, num problema de serviço, na roupa mal arrumada da mulher do Zé Pedro. Desce-lhe outro gole de cerveja, olha pro escuro, no fundo. Pensa em se ser feia, vai ao banheiro. Vê-se. Olhos desalentos, amargura de ontem, desgosto na pele. Pensa em ir só, primeiro táxi. Volta a mesa, toca telefone, não há de ser..., sente descompasso no peito, arrepia. Desce mais Uma. Não atende. Á mesa ao lado alguém a esperar, vê a amiga, respira. Chega-lhe perto, o aperto, o abraço, o rever de sempre. Senta-se. Longos fios se tecem no entre. Sentem-se confidentes, choram-se, abraçam-se, se entendem. A noite inda há de ser de muito longa e aqui. Telefone retoca: Mensagem. Olha o meio fio, meio fio. Não há de ser nada em novo, mesmosempre. Imagens do pretérito percorrem-lhe, sente nulo. Amiga ta ali, a se novidar. Ouve resignadamente, ab sorve. Loucuras. Desce mais Uma. Mesmosempre também sente. Olha em rededor, telefone público. Festas programas, no futuro, amanhã. Quem vai? Onde? Como? Desliga Celular. Pega pulso da amiga. Outros fios se retecem, sente-se tecida. Olha o copo, refresca-se. Acende um cigarro, pensa em tomar vinho. Lembra do Banco. Desiste. Religa o aparelho, nova cena. Em meio embriagada telefona. Re liga. Caixa Postal. Angustura. Tenta escrever, tenta pensar, tenta fugir, tenta se haver, mesmosempre, mesmosempre. Amanhã?
enviada por Gustavo Alvarenga






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