Cotidianos

03/01/2005 04:50

Inércia

...Era esquipática. Isso todos sabiam. Mas não deixava de ser notada por outros atributos, como uma beleza sutil, que se via quando se lhe notava mais os olhos, e uma certa displicência no trato social que cativava, sobretudo os mais interiores, como ela. Morava sozinha, tinha 27 anos e era dentista. Não falava quase dia todo e tinha fascínio por bocas abertas e caladas. Alertava com jeito manso seus pacientes sobre técnicas de higiene bucal, deixava crianças temerosas sobre os perigos da má escovação. Tamanha distancia de si com o mundo nunca entendera porque os pimpolhos depois da primeira consulta, nunca retornavam. Enquanto trabalhava, não escutando voz de gente, cantava. Usava um aparelho Cd portátil quase invisível, que impedia o barulho ensurdecedor do motorzinho tão temido, arrepiar-lhe também. Não era sádica, mas indiferente. Única herdeira de um pai já morto. Não se atrevia a namorar ou coisas do gênero. Não se metia a muitas pessoas e era de poucas, mas fiéis amigas. Nunca confidentes. Para isso tinha a psicanálise, arte a qual se submetia sempre às quartas feiras, com empenho e meticulosidade de dentista. Igual não se desesperava, tampouco se angustiava, o que não parava nunca era de cantar. Foi das primeiras, e talvez a única, pelo que sei, a instituir o critério da trilha sonora, como imprenscindível para a escolha de um supermercado. E ali quedava horas, cantando, enchendo os carrinhos, testando novos produtos, imaginando pratos gostosos e nutritivos para seus fins de semana. Nesses, punha mesa com esmero e cuidado, às vezes acendia luz de velas, cantava Chico, Caetano e Jobim, sempre nessa ordem. E se bastava. Ria de si sozinha. Palmilhava espaços imaginários, nunca antes visitados. Depois, farta, Beethoven, deitada no sofá, olhos fechados vagueava pensamentos em lembranças e projetos, mesmo tempo. E por mais que se pensasse que não, era feliz. Cultivava o hábito de shows fechados, cinema e teatro, sempre só. Bom gosto não lhe faltava, o que a fazia uma pessoa interessante, despertando, às vezes, emoções fortes, em pobres mancebos que se apaixonavam. Pouco se importava. E sua indiferença nada mais que doava um charme adicional aos arredores, que lhe viam como forte presença, por vezes. Conhecida profissionalmente. Independente. Faltava-lhe a substancia mulher, que nunca encontrou. Certa vez cantando, beira esquina na Savassi, voltando do trabalho, viu um menino lhe pedindo, adotou-o. Já com seus 35, custeava-lhe todos os bens necessários. Ele cresceu, deu-lhe uma educação rígida, cuidadosa, mas desafetiva. Ele, por mais que lhe fizesse demandas de amor e não recebesse, não lhe faltou o respeito de filho à mãe única. Com dezesseis quis um pai, fugiu. Nesse tempo ela chorou por dois dias seguidos. Depois voltou a lida de sempre. Não quis mais nada com ninguém. Só não esquecera a música, último recurso que lhe tinha para se dizer....
enviada por Gustavo Alvarenga






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