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08/01/2009 20:54
Filiação
Ele aprendera a olhar fundo; resquícios do pai, versava cada gesto que encontrava ao redor, minúcia tamanha que nem de vagar não era. Era por pura e urgente pressa de apreender o sido antes que lhe escapulisse por sobre memória. Interpelava tudo, e não lhe receava a pergunta ao que é, o fundo do tudo; natureza, fundamento. Palavra às vezes não lhe aquietava já, era um trabalho de intraduzível e rudimentar encaixe, tijolo tijolo, forma e coisa, signo, som, sentido. Até tudo se juntar e se dizer em júbilo um ahh, que desmancha o construto.
Mas olhava fundo e esses olhos eram do pai. Atravessava o inquirido e desbancava o jargão. Fugidiamente diferenciava o bem mal, o mal em bem, as formas líquidas das coisas fluidas que se enxertavam no sólido. Era assim também, molee benevolente com as formas; o barro. Massa que desforme reformava vida, e assim o era. Dentre as fantasias do Ser da sombra o interjogo de luzes e focos a rondar, é som agudo todo cor e olhar e se apreende assim todo ainda coisa no meio delas. Ri consolando-se - longo é o caminho da verdade para se voltar a evidência de se estar ali e ser isso que é sem se por diante. Essa coisa de se colocar diante às formas, regular forma de sujeito verbo objeto. Assim será aquele que fez o que fez a alguma coisa, e não é nada disso, pois que isso é só, esse prazer, essa dor, esse riso, esse gozo, esse... ai... esse ai. Então tudo é ritmo, chic chic chic chic. Molestar o Som. Chocalho. E os animais em forma giram em torno do olhar circulante, em rotação universal com as coisas. És todo certeza quando vê. Pega o pedaço de fita que o liga ao cenário do mundo, ond etem lugar ainda em todo especial sonho que fulgura na mente de uem olha, imagina o teor das faces, a fulgura dos olhos e o arredondar dos lábios, mistério da voz, e de cor das pupilas. A mão acaricia um pedaço do que nem foi ainda no em torno do que ama e sai.
Olhas profundo e o olho é paterno. Alucina diante a si mesmo o tanto que não foi ainda e virá. Os olhos penetram dentro do ventre da mulhermãe, pari a forma definitiva do filho que vai nascer. O instante todo é Pai, tecendo encontro parte de si em si mesmo no entre das cenas. A chegada filho anuncia o que virá. Criatura da criação física enrodeada em imaginação é volta a si que do si era e ainda não. A terra aqui se aquece em coração para a chegada de seu Mundo.
enviada por Gustavo Alvarenga
22/04/2008 20:25
Mormaço
Ela se fez de mansinho que ia, mas não foi. Medo se sente de gente que se conhece assim entre estar e não, no meio do nada, no meio da rua? Há de confidenciar tudo depois às amigas a cantada tão bem pronunciada pelo moço da padaria, bonito, esguio, belo de olhar azul acinzentado. Pediu-lhe o telefone, ela se recusou, disse que tinha namorado, marido, nem lembra que mais desculpa inventou, mas sabia onde estava e qualquer tempo que fora, poderia ali voltar, meio que sempre usara para disfarçar interesse, um tanto de pão de queijo e aquela rosca açuarada, demora não moço, que senão morro de fome. Trabalha dia inteiro, e volta sempre a mesma padaria. As amigas se lhe sorriem de sua beleza, fria e romântica, comportada e singela, sem sal, diriam outras. Ela sempre quis se ser, entre estar ou não. Mas o dia quente e abafado, dava-lhe pretexto de sobra de ver nos olhos cinzas do moço, beleza inconstéstil de quem nasceu para ela, e é só ela lhe fazer gosto. Comprou a melhor rosca àquele dia, e disse ao moço que quando saísse da padaria lhe mandasse recado no número embolado em papel de pão. Ele sorriu cabisbaixado e soltou um podêxá. Ela saiu embaraçada, e pronto se aprumou ao apartamento. Morava pequeno, no centro da cidade, quarto sala tudo junto meio a cozinha e sem plantas, pois quase não bate sol. A não ser esse de manhãzinha quando a entra pela fresta da cozinha acende um pedaço de papel de pão e vai-se embora. Ela se arrumou toda em festa, sorrindo para o mundo e as cores, que atrás de si não existiam. O rapaz se atreve, ligou, ela re-ligou, chamou-o a entrar. Comendo pão sóbrios que estavam, ele de ainda meio uniforme, ela toda que emperequetava, não ousaram a tocar em mãos e falavam de assuntos padaria, da hora morna das 10 horas à hora quente do meio dia. Os pedidos lhe eram confiados em muitas vezes por pessoas estranhas, sem educação, e de muito havia que se suportar atrás do balcão, aos caprichos, às mazelas, a voz irritante do outro. Ela a tudo ouvia em suave resignação e não quis se atrever a por a mão onde não devia, o tempo estava úmido e triste demais pra isso. Por dentro se ferveram e não ousaram toque, finda a rosca, um se despediu foi ao elevador. Se entretocaram e um beijo de despedida, e se despediram. Despedida, voltou à casa, percebeu que fervia de dentro, mas o pensamento exasperava. Era desejo puro e nulo de se banhar-se de toda para o balcão da padaria. Não quis. Fez-se aceno e no fim de se despedir, no afã de querer, talvez ele não quisera, talvez a hora não fosse aquela, talvez tempo mesmo fosse de aquecer para ao depois quiçá. Repetiria o mesmo e inquieto repetitório? Daria de difícil passaria ao largo esperaria... ? Semanas foram e o rapaz não ligou, desencantada que estava confessou as amigas o crime do não desejo, que só homens pederastas ousariam impor a donzelas tão charmosas quanto ela. Passou na padaria de novo, pediu pão de queijo, e ele demorou a entender o que queria. Sorriu para ela, colocou um a mais, piscou-a, ela fez de desentendida, e virou-lhe as costas contra a fila do caixa. Ela tremia enquanto se sentia bunda observada, umedeceu-se quando roçava meio que em contratempo o pênis do rapaz novo que lhe estava por detrás, olhou de soslaio, pagou a conta, o rapaz olhou para o vidro que lhe espelhava olhar no fundo. Ela fez de incontida, pediu troco e foi-se em passo apressado, arredado. Fervia.
enviada por Gustavo Alvarenga
22/04/2008 20:07
Sol
Era meio dia e muito ainda havia que fazer, o jardim semi arrumado, agora necessitava de uns retoques de adubo e podas para aquelas plantas que insistiam em se crescer além da conta para os lados e defronte, onde moram no ar se entrecruzam a outros galhos e se lhe prejudicam o crescimento. É vário e forte a exuberância de cores que agora atingia o vale e as montanhas. Sim, mas a proliferação do matagal, o zunido cada vez mais ofegante dos insetos e essa pelagem textura de lhe tirar os sentidos na moleira. Muito ainda havia que se fazer em sua vida de jardineiro e em muito lhe era exigido o que comer, a mãe em casa, a fazenda, o pai morto e os horizontes cada vez mais próximos, já lhe eram contados 25 e nada ainda na vida. Foi-se tempo de serviço, agora é hora de pular no rio. Divertira-se com os colegas, a bóia, o nado, as brincadeiras de sacanagem. Enquanto se lhe entretem no passar das horas quando se põe sol lá pras tardes da noite, é hora de voltar casa e rever mãe. Mãe morena, cor jambada, mãe serena, mãe amada. Olha muito pra ela todos os dias em que gostaria de lhe dizer certas coisas, que a boca não ousa pronunciar que não seja por gaguejos, mas coisas boas, luminosas, úmidas, plácidas. A mãe lhe satisfaz com um sorriso, um tanto de café e um copo de suco grande , bastante gelo, que é pra refresco de homem trabalhador, que rala do dia inteiro e que não tem medo de enxada e nem de açoite de patrão. Mãe lhe satisfaz, pura. Ao anoitecer meio que inda cabisbaixo soletra palavras com os companheiros da rua, meia varanda vêem a versar sobre os dias que vem vindo. É tempo de muitos mosquitos, desses que a chuva traz e a luz atraí. Envolvido que estava era de namoro com a moça da rua de cima, linda pele bronzeada à gosto do sol, e de linhas bem torneadas pelo bater do roçado e vassoura, sempre em dias claros. A vida se lhe prossegue será longa e cheia de frutos, nada de vida sertã, nada de prmossas vãs feitas a santos ao alcance de milagres.
Dia nasce em cores forttes, mas tingidas. Hora dse passa em meio a lotação sempre sono que ainda quedou na fronha da cama, antes de ir. Bate cabeça no assento da frente acorda sobressalto, inda há tempo de mais um sonho com Rosa. Ela de braços abertos em açude próximo chamando-o para entrar na água, ele animado dá um salto bate perna na pedra, Rosa ri de seu desajeito, socorre-o toca em seu joelho. E uma fresta de luz bate em seus olhos a corda onírica rebenta o que liga o imagineo e o sonho de vida real. Vai cuidar de jardim, que tempo é de beleza, mesmo que em seja pra rico ver e gozar, do fruto de seu labor. Rancor que não leva, mas o dinheiro pro sustento, as vontades da mãe e a crueza do pai que se fora, quando, aperreado que estava de dor que sentia morreu na fila do SUS, calor e calor. Ele inda novo não se deu conta do infortúnio, achou-o bom, Mãe só pra ele agora, pois irmã que se casou, pras roças não voltou, e ele jardim, jardineiro, sonha com Rosa, ri de seu próprio gracejo, e tem Mãe só pra ele. Inda sol torra-lhe a pele, e são ainda meio dia, hora da bóia e muito inda pra se fazer.
enviada por Gustavo Alvarenga
22/04/2008 19:47
Chuva
O velho se assentou e disse que sim, eram três horas da tarde, e a hora era lúgubre. Em clareira o céu se anuviava, diante aos pavores de trovões e em distantes relampejos horizonte. Voltou-se à casa e sem pressa desligou os eletrodomésticos em pavorosa solidão. A hora de chuva é hora de leitura, e se assentar sobre a mesa, em compasso com a cadeira que constrangia na bacia, era o que lhe restava diante a um mundo plúvio e hostil. Não se atreve a pestanejar, a natureza era bem mais que ele, contra as intempéries de Deus não cabe ao homem sequer um esbravejo que seja. Sorriu resignadamente ao abrir a torneira e constatar a secura que provável seria, devido à chuva e o estouro do encanamento mal posto na redondeza. Sentiu forte fisgo na veia da perna, eram de varizes torpes, esculpidas em alto-relevo, entorpecidas que foram de tantos tempos perdidos em máquina de datilografia no escritório da firma e em onde se apresentara durante mais 40 anos e de onde saíra tão logo lhe fora substituído o com putador. Eram quatro horas da tarde e o telefone range estridente pronto a lhe acordar, dormira na cadeira, a luz não mais existia, e temia nessa hora tempestosa também em antender telefone, mas foi. Era a filha. Comprometia-lhe com a mesada do neto, que morava longe, repetia-lhe os tão soberbos conceitos de como vestir, de o que comer, do que fazer de manhã, de como se portar diante a. Escutava tudo em misto de aflição e secura na boca, era difícil não concordar mesmo que discordando, e mais que ainda dizer-lhe palavra quando a saliva se lhe juntava e ousava ainda pronunciar verbo, que no instante em se expelia, era logo repelido, pela abundância de proferimentos do outro lado da linha. Do outro lado da vida, pensou. Quem agora irá dá por si de conta se ainda, como o fora antes, consideravam-o criança. A luz voltou, anunciou o motor da geladeira. Abriu-a, e lembrou que tinha sede, mas não havia água. Quis um copo de iorgute, mas não se atreve a ler ou confiar no prazo de validade, pois que em muito se esquecia das coisas, adquiridas, consumidas ou mesmo envelhecidas em geladeira. À sombra das horas já lhe apetecia, eram 6 e meia da noite, e talvez, lá pelas 7 vinha-lhe visitar Alfredo, amigo do escritório, a quem confiara horas de conversas e jogos de xadrez. Veio a campainha e o amigo. Veio a campainha e o síndico. Veio a campainha e um neto fora de hora, pedindo a avô dinheiro para o tão esperado momento em ganhar a vida só em cidade estranja. Disse que sim a tudo quanto lhe passou. Veio a noite e a serventia da cama. A luz do abajur e a solidão das horas negras. Sempre que podia e assim tempo lhe permitia no momento de carne e diáfano, promoter-lhe a vista da aurora. Esperança não lhe faltava a contemplar-lhe. Só no parque municipal da cidade, meio em vista ainda anuviada, criatura do asfalto, berço de madeira, olhos ríspidos que o fitavam, a atitude do guarda, a ainda paquera das velhas soltas que em um ainda lhe comprimentava. Olhou muito a sua volta e constatou dois peixe mortos em espaço descontínuo às águas da lagoa. Os olhos se encheram de uma certa revolta, parte de um poço havia se secado e a desculpa alegada pelo guarda fora a ainda chuva de ontem e o arrebentar do encanamento. Sentiu no momento aperto fio na veia do coração. Não se atreve a gemer ou interjeitar, mas dispensou a atenção guardião do guarda. Olhou para a árvores grandes, frondosas de aparência oniponente de aspecto vigoroso. Sentiu nas pernas o bambear constante de quem caminha cedo, antes que a cidade comece a contar as horas. Voltou à casa, portando ainda duas garrafas de água mineral, tomou-as como quem há muito nada tomara e em continuum com o universo sentiu na água seu acalentar. Sons de passarinho, de filhote no ninho, de besouro, de ventilador, de motocicleta, de ambulância, de folha batendo, de carro rangendo, de fio esvoaçando, de vento ventando, de gente correndo, de grito, de gotas, gotas, gotas, de borracha asfalto e água. Chuva.
enviada por Gustavo Alvarenga
05/11/2007 00:33
Contos Ayahuascados II
Diferir, di-ferir, foi apreendendo. Tudo é uno e diferente. È e não, é na medida do que Ser e também seu contrário em contraste com o infinito. Olha os mosaicos firmes na brita como se sempre estivessem ali, cada unidade em outra unidade diferindo, em forma unem-se em um todo que são. De onde vêem? A pergunta retira-o prontamente do sonho, mas não dos mosaicos, alucinados? Re-encontrantes, são entes que permanecem no tempo e se lhes dão a oportunidade revelam-se a um olhar que dessombra. È. Definha-se, aí. Quisera ser somente o que sou, mais nada. Mas tantos, quantos, sempre máscaras anuviam a obra completa, o ser dentro em fundo interior essência. Há de se procurar, mas não se encontra. As unidades de si se perfazem em mosaicos coloridos e desconcertantes, espanta-se com a forma, como as coisas fúteis se unem em um todo belo e notoriamente aparente, espantosamente oculto à visão cotidiana. Nada escapa à um Ser que lhe toma de todo corpo. É. O abraço da Mãe, o aperto no peito do tio, a morte, sempre requisitada, perseguida e inesperada morte, vou sair daqui, olhar além do oceano chamado mundo. Seres estranhos habitam as escalas além do Si, do Si, de todos os Sis. Meio que buscado se re-encontra na finitude. É. Limite. Quer saborear melhores vinhos que de outrora, beijar bocas nunca dantes desejadas, resumir a vida, a isso ou aquilo. Não. È. Não. È. Não. E na contradição é todo certeza de que entre Ser e Não, existe. Brilhantes, como o são, fractais. Instante de infinito no finito, modelo da sobra, da dobra, da viagem. E embora, sinta, marche sempre, de dois em dois em instantes singelos, sente a perda, um cordão tomar-lhe o pescoço, sente o ganho. Além de nós, além dos seres, mas aqui mesmo, nesse singelo coração que por respiração inspira o maior dos milagres, a vida. O não. O Sim. O Ter. As coisas que possuía e que o possuía. Todas as coisas, das mais singelas e importantes, a mais exorbitantes e insignificantes lhe passaram como filme a circular essa parte que vê outro, mas que vê si, a fronte. Outros dias foram se re-cordando, naquilo que lhe vinha peito e que doía. Os acordes dos sons acalentavam-no, eram brisas sonoras que acometiam corpo e suavizava essas visões terríficas e o tempo se fez um presente eterno que lhe invadia êxtase. Sexo, orgasmo, sentiu na fibra das juntas a sensação de estar todo em tudo. Cósmico
enviada por Gustavo Alvarenga
02/04/2007 01:30
Contos ayahuascados I
A sensação foi lhe tomando de leve, em início sonolenta e calorosa, foi-se lhe sentindo o estômago, constatando a sua existência entre as mamas e os genitais, entre os gritos e os sentidos. Não teve medo, mas algo lhe prenunciava situação desesperadora, pois sem ao menos sentir que estava sentido, algumas lágrimas rolavam-lhe a face e uma pressão na fronte vinha como agulhadas, mal por ele notadas quando viu pela primeira vez.
Fechado os olhos estava em um matagal, tons em púrpura recheavam o lugar luminoso, onde se reuniam seres antes nunca nominados, mas que se lhe aproximavam e lhe espetava na fronte. Ouviu sons em uníssono e não soube localizar de onde vinham, o logos lhe chamou a volta e percebeu que estava bem. Não tinha como explicar que estava bem, embora o desespero tomava-se lhe todo. No abrir e fechar os olhos saiu da paisagem de outrora e no fundo viu seu pai, rememorou as suas últimas palavras antes de partir viagem, era sábado e ele pediu que cuidasse, incluso mãe e irmãs. Sentiu-se como que traindo as suas ordens e mal cuidador. Lembrou-se do jardim da casa que não aguava, da irmã solteira e carente para quem não ligava, da mulher com quem mal pouco fala, da mãe caduca para quem não tinha paciência. E quis por um momento re-viver. As cenas de sua falta de zelo se repetiam no trabalho, mal sabia o nome da secretaria novata, viu que Raimundo necessitava de mais atenção para o cumprimento das tarefas diárias, viu que suas contas estavam atrasadas por demais e não quis. Pensou em sair de férias, em largar tudo, pensou na mulher e no seu carinho, os filhos já estavam por demais maiores para ser.
Ao sair a relva molhava a grama que sob a luz se evaporava saltando uma estranha fumaça, cor de ouro. Os mosaicos se multiplicavam na brita e o céu esquadrinhava-se como que pintado por Da Vinci. Uma estrela se deslocou e lhe segui, quis lhe contar segredos e ouviu. Ouviu como som que não se pronuncia, como algo do íntimo que lhe vinha, e à estrela respondeu que sim. Observou que tudo em seu tempo vive graças a doação misericordiosa do amor. O amor da chuva pelas plantas, das plantas para com os insetos, dos insetos para com os homens, dos homens para com as plantas e o ciclo se repetia e se refazia no brilhar da lua lá de cima banhando o céu de uma luz boa e gratuita. Guiou-se um tempo pela luz lua. Viu também que era sua mãe, pegou torrão de terra e o amou como matéria bruta de onde tudo que é de si deriva e viu também que as formas antecedem as visões. Fractais, um redemoinho de luzes e cores, desfilavam-se consoante às sensações do estômago, quis reaver o que antes havia perdido quando ainda infante brincava com os musgos das pedras, imaginando seres invisíveis que habitavam, antes de tudo, as profundezas minerais. Pegou em si, disse que sim, a onda veio de todo corpo e se esgueirou a lançar jato de tudo para fora, quis mais, deixou-se invadir de novo. De si a gosma à terra, a terra, olhou acima o céu.
Ele, a gosma, a terra e o céu, se preenchiam na curvatura do universo refratário da luz que é boa e tudo gera. Viu as mazelas, pensou nas guerras do mundo, do sempre presente ódio à raça humana que só os humanos possuem. Sim intuição essencial. Tudo amava e só em nós o ódio. Viu nele os desamores, o ódio sobretudo a si, aos seus cuidados foram lhe entregues coisas, e mal se cuidava do corpo: comia mal, dormia ruim, os cabelos ressecavam-se, a pele enrugava-se, dedicava-se pouco e muito pouco aos queridos que gratuitamente lhe amavam desde antes.
No início a forma. Gestalt. Ela em tudo se lhe aparecia e viu o mundo das idéias de Platão se lhe desfilar pela mente, pensou na mãe de todos no pai de tudo, e seu Pai de novo.
Pai com quem agora se aparecia mais, quando olhava no espelho e seus traços como nunca antes o foram eram ele. O antebraço, como se parece, os olhos, os olhos não, há um que de feminilidade nesses olhos, há uma íris que cuida ao olhar e também seduz. Lembrou-se que amava e odiava por ali. Homem de poucas palavras aprendeu a se expressar pela fronte e falava muito pelo olhar. Sundeliamente seu corpo se desfez em sua frente e viu o mundo em múltiplas perspectivas, viu que tudo era forma, mas no mundo são prismas. O prisma que olhava, era por demais rígido, quis amplia-lo e sentiu um alívio pronto na traquéia. Pode-se falar também, pensou. A fronte se aliviou e o rosto voltou-se límpido contra o espelho em que agora se re-conhecia. Enfim se perdoou, subiu com alegria e nas alturas um homem, cajado em mãos se apresentou filho da terra para onde retornaria. Viu que terra é mãe céu é pai, e no mundo somos dados de um jogo infinito entre pólos que em momentos sublimes se re-únem. Não pestanejou ao falar quando de novo voltou a casa, aprendeu também um pouco do silencio necessário ao ouvir, e do silencio interno ao pensar. Viu que tudo era logos, e em logos foi-se construindo. Em terceira pessoa quis não ser mais, e anda ainda em busca a sua forma originária.
enviada por Gustavo Alvarenga
06/02/2007 22:22
Reencontro
Estou de volta solidão, acolha-me
No rádio as notícias destoam, acalanta alma ferida
Remova solidão a parte antes esquecida que se embrenhava no todo amor que em delongas me envolvia.
Traga-me de volta um tanto de mim que ama a ti, que nos saibamos nos encontros vespertinos, à mesa do bar, a cerveja, o domingo.
Entenda-me solidão, eu, teu sincero companheiro, amante sagaz de tuas fábulas,
espero saudosamente tua face cálida,
serena como a dor de quem partiu e se conheces partido.
Faz-me em alma lusitana, teu saboroso ardor de cantos profanos, entoados em surdina, nas esquinas, ai que temor tenho dos tempos em que só me desfazias.
Mas agora sei e te compreendo, você e eu, enlaçados em eterno.
Sou teu amante poeta insonte.
Sou teu mensageiro de terror errante
Sou tua voz enfim, sua revelação.
Se de existenciares não sou e sei que és. Ré-encontro.
Se em retalhos é que te fazes branda.
Não, não, não, não.
Serás no Tejo que indo a mar me recordarás?
Serás no Tom hostil de um sopro em menor?
Serás de volta a terra, estiado o tempo, sol em céu?
Abandonar-me-ás um dia sólida solidão.
Voltar-me-ei ao meu irradiado de em mim em outra.
Justa-me na medida de um amar mais silencioso.
Interno como sei que assim me queres.
Sereno como é dia em primavera.
Amante de coisas nulas, cruas, como assim nos entendemos.
E de espanto, quedamos olvidados, do fiel pranto, que da espécie humana assim me enlevas.
E no encontro desdencontro que me carregas: vamos amiga, que dia é tarde e noite é finda, montanhas só aparecem quando se sobem, nas vagas das colinas, ao amanhecer.
Viva como és de viver no perfeito equilíbrio entre estar e não.
Ser ou antiga questão.
Estareis contigo oh Gustavo amigo
Quando findares aventuras que te ousas a arriscar, acarinhar corações alheios.
Sabe que no fundo de ti e é em si, eu te resido e volto a habitar-te como antes fora concebido e assim irás de partir, morrer.
enviada por Gustavo Alvarenga
01/02/2007 15:01
Ode ao Louco
Apenas acordou e de salto se viu só: estava no centro da cidade e já era sol. Esse que esquentou seu corpo a ponto de se se despertar. Olhou fundo na garrafa que prismava seres outros que vinham de um edifício dentro, muita gente. Pessoas atarefadas, inham e vinham movimento contínuo, e com os olhos que se fascinam em pouco pelo que se vê, foi em pouco fascinado nesse continuum torpe de movimento. Depois não se ateve mais, levantou, corpo pedia algo, vazio estava dentro, e em tanto se ouvia roncos, que não se sabia de fora ou de dentro, mas que se sabia, e o gosto era de uma avidez profunda de se tomar conta, sentir tanto zonzo, cambaleado, vista anuvia. Viu o prelo que portava, era de foto e letras, e no topo saltava-lhe uma sigla que se conhecia e sabia e juntava-se aquela porção vazia e rancorosa, pôs se a saber que aquele outro de foto, o olhava e se juntava aqueles outros garrafas e lhe estavam dentro. Passa em rua uma barriga grande, vista do baixo, parecia em tudo se engulir, pronto, morde a própria mão arranca-lhe toco de carne e sangue, que sorve e dói e vê. Isso o aliviara em instante, pouco instante, mas que ao depois com dor e sangue vinda do ventre e da extremidade manual, sentiu um grito romper-lhe a boca e se desfazer no ar em meio a outras vozes que o enguliram. Passa-se um outro sorvendo sorvete, vê o visto e o gélido, apóia-se no azulejo de tom frio, sente tudo o mesmo teor, mimetiza-se. Em fim falava-lhe novo a mesma voz petulante, que quer morrer, que vai matar, que quer morrer. Responde ao cego que lhe bate, e em pouco acorda do suor gélido que já se amontoava no passeio. Vou morrer não, se quer matar se mate, eu que não morro. Ao que cego e já apressado, dá de não se escutar, voz inoperante no vazio, sino. Da igreja que já soava oito, sino bate peito estremece, bate dentro, acorda-se em imagem do cão que o apavora, aquele do rabo preso as costas, sem ruído e sem latido, mas de olhar lacrimejante. Foge pela rua, deixando de trás cobertor. Avisa um desocupado de esquina que eles chegaram e já vão lhe pedir o jornal que curarará a fome do mundo, e que o demônio virá da barriga de deus, em forma de cão. Sino, sinal. Olha-o fechado e o tom tanto rubro atinge-lhe em cheio o braço e sentindo-o peso frio sangue, que já lhe acometia mãos. Há meio que seguindo passos de um senhor tenra idade em sua bengala segue a outra margem de avenida que em meio fio se lhe espera. Olha seios despontando de uma malha fina, o antebraço se contorce em dor e braveja com os pelicanos do Alasca que vinham visitar-lhe dentro, sempre em tom falante e sereno, discutindo. Tornam-se amigos, ele, os pelicanos, um de pata quebrada conta-lhe das desventuras da caça aos peixes no atlântico norte e que lhe foi mordido por um bem no meio enquanto avistavam outros, mais fáceis e frios, mas não menos apetitosos. Sente fome. Vê um lixo, é isso. Guarda se lhe apanha na rua, identidade? Os monstros é que sabem do velho que veio guardando um papel no bolso e lotado de peixes na barriga, era um sinal, meu amigo, era um sinal, não ouviu? Guarda se lhe reconhece, louco. Penetra absurdamente dentro da viatura de um sinal que se lhe enviavam de longe, um guru. Do haades herdara esse prazer pelos mortos e a crucificação era o fim de todos os tempos do tempo. Guardou o corpo, remexeu, lamentou, disse que não. Ao por fim no pousar de ombros que se deu no ombro do guarda pediu consolo e aposta no fim de si. Guarda se deu por vencido, disse que lhe cuidariam ali. Foi por meio, do meio, viu que era guarda também, e que passaria assim a vigiar a fome dos outros e aconselhar aos pássaros que não se deixassem mais se convencer pela fartura de peixes dos mares bravios das terras nórdicas. Sentiu arrepio, sono, injeção em veia lhe invadindo, perdemos o resto da trama, destrama-se nos negócios fortuitamente reais..
enviada por Gustavo Alvarenga
29/01/2006 21:05
Na Lapa
Entardece na Lapa de modo diferente vida quente que agora se refresca com uma fina névoa brisa que nos arcos são sombras. Continua a vida de quem ali se parou, como ele. De fino trato, terno branco, chapéu em mão, sapatos sempre bem lustrados, engraxatados. Malandro de Rios atrás, era figura desponte que se aliava aos túmulos do samba e com a mesma cuíca perambulava entre as rodas de samba, galanteando as mulatas, sorvendo cachaças, fazendo amizades entre intermitências. Não se passava desapercebido entre as putas e os malandros que indabitavam esse insonte pretérito que insistia em existir. Conhecido, sim. Não há uma só alma viva em Lapa que dele não se dê notícia. Sozinho, sim.
Entre milhares de famílias que em si coexistiam, o filho assasinado, a filha que se mudara para Londres, os sobrinhos que de pouco o visitava, e a imagem da mãe morta e do pai alcoólatra a sempre perseguir. Não era dado a amores embora os cultivava. O som da cuíca acalentava coração encachaçado e chorava saudades em tons menores de sambas antigos entre Noeis e Cartolas, entre Carvalhos e mulatas samba quente que desde ontem até hoje aterrorizava. Sedutor. Boa pinta. Os arcos marcavam-lhe a fronteira de território dominado, pois que não se atrevia a de ali sair em quanto tempo. Morava em pensão. Comia pão, Dia sim, dia não, malandreava por entre turistas desavisados, ou mesmo charlateava com as pompudas turistas do além tlantico.
Mas o entardecer o entardecia e sempre. Não era lá de se dá por carente, nem mesmo de dor se compadecia. Mas não se continha em essa hora. Acendia o velho cigarro de palha e sob a linha do céu penetrava profundo em cantos escusos, prisioneiro que ainda era de umas almarguras. O Velho sempre chorava escondido, sem que ninguém o notasse. Dor que ao som da cuíca ganhava voz. O mio do gato ressonando inda fundo. Pressas coisas sem nome se alinhava ainda mais. E olhava no espelho penteando seus ainda negros cabelos pesar de idade, e ai de amantes que ousassem em lhe intervir. Era mundo grande dentro e fora, fora dentro. Caiu uma vez num buraco e quebrou o pé, herdou um andar meio torto, mas que ele corrigia com um andar maroto malandrosamente num passo de dança. Das gafieiras era Rei, e não abandonava nunca sua velha camisa suada do Botafogo...
E foi em ida dessas a tarde, em lida dessas solitárias, vibrado que estava pelos sons de cavaquinhos, muito inhos, vindos de uma casa ao lado. Era uma dessas tardes quentes, era uma lua crescente. Era um estar poente em que Maria Aparecida apareceu. Do estar a Deus entregue olhou em olhos fundos de mulata bem dotada, vigorosa. Foi ter com ela e se lhe contou toda vida numa até as oito horas da noite. Seguraram mãos e ele se apaixonou primeira vez. Com seus já quase setenta, rosnou a cuíca naquele sábado a noite, e ela dançou, sapateou no seu inda peito não de todo rebentado.
Foi com Aparecida que ainda batucado de cachaça foi-se ter o Velho e o indadolescente indolente Manuel de Oliveira. Moça fina, família. Escândalo atenuado com o passar do tempo. E ela ainda em si se aventurava em noites em que ele já quietado, dormia em compasso de um ainda sono tarde de desde muito. Não se importava. Maria inda menos. Depois de tudo encontrado, foi saber que Maria era sua filha e a história acabou.
enviada por Gustavo Alvarenga
23/01/2006 16:25
Na Mangueira
E que prometido estava que sua princesa seria, além do mais, rainha da bateria, desfilaria exuberante no sambódromo em cheio de pavorosa alegria e de onde a veria, nutri-se-ia em gozo jocoso aos amigos circundantes que, estupefados, contemplariam as belas pernas que ele, nas noites que lhe conviesse possuiria, acertada de indelicada precisão.
E que Lucas pé de cana, tão bem apaixonado por mesma rainha, e diretor da escola há de anos, obtivera promessa dívida de em noite se passar com ela, caso ele, promotor que sempre fora das exuberantes formas femininas, iria, como se ao passar, dar-lhe o título esperado.
Como quem se encontrava há muito enamorado e ao de mesmo tempo sentindo arrepio de morrer por de tanto se apaixonar pela princesa da boca da mineira, quis assim se aliviar do peso que em si mesmo não suportara, e o prometido a amada, de íntimos propósitos, torna-se comprometimento palavra, de forte indulgência, com o assínio de aperto mão, ao Dodô Mineira, que não se contendo, quis de todo se anunciar, e já de recompensa, preparara, uma dedicada importância, e que Lucas, com essa já se previa em aero fuga com a mulher de sua vida, em algum canto mundo de recolho, de escondido.
Não ousou em nenhum momento duvidar da certidumbre dos seus intentos. Fez-se muito comemorar nas eliminatórias, enchendo o pé de cana, a cada nova vitória que a rainha se exibia, sem ainda contar, que nos momentos finais despenderia, sem alguma hipocrisia, alguns gracejos monetários ao júri a ser formado, e para quem, não duvidaria que de bom senso agradeceriam e tudo já estava certo.
O samba prosseguia em eufórico todos os dias na casa de Dodô, Lucas sempre comparecia e apaixonada fitava as tão prometidas pernas da Rainha de sua bateria. Como excusa de quem conselharia a tão bela moça em seu concurso, era-lhe ainda concedido, sem em muito bom juízo, conversas plurintimas na varanda, onde toques sutis e beijinhos bitocas, eram sempre permitidos, às excusas.
Enfim fim das Contas. Júri final. Barracão da Mangueira. Comunidade, Gringos, Badulaques, Asfalto, Imprensa. Ele já contava a vitória por 5 garantidos, sem pestanejar, e só esperava a consagração, a festa, a redenção, o paraíso tropical, seu amor realizado, depois do carnaval. Tudo bem acertado, nas conversas varandas.
Não contava, no entanto, entre tantos e nos tantos que certo corruptível ainda se corrompera mais de muito tanto por outras bocas bem avisadas. E lhe traira por de certo, pois a atual de Lucas fora dele já há muito namorada, e lhe trocou pelo Pé de Cana, a quem já estava por de ser traída. O Judas, além do voto não confirmado, levaria, quantia maior, e a mulher do Chatô de Lupcínio. Quero ver a mangueira derradeira estação........ E A RAINHA DA BATERIA PARA O CARNAVAL DE 2006 É........ .... quero ouvir sua batucada ai ai.
Prevendo o que iria ocorrer, com a morte a circundar-lhe peito, apressou em aeroporto com passagem confirmada: Miami depois Johannesburgo e pretenderia, após volta, identidade falsa, viver vida boa em interior Rio Grande do Sul, de onde viera.
A Boca em pavorosa e sabendo do sabido antes mesmo do qualquer aviso posteriori esperou-o em Galeão, levado fora a Gávea a um passeio discreto. Metralhado, esquartejado, queimado ao depois. A Rainha chorava noite consolada por Zé Biquinho, anão de poucos atrativos na história universal de donzelas desiludidas. Dodô ao chegar ainda lhe espancou, culpando-a do inoportuno de tudo que se seguira, pois se já não era competente para ganhar concurso mesmo quando lhe arrumara, já também dele não servia e que só não lhe matava por puro respeito a senhora sua mãe a quem prometera ser-lhe em bom, no sempre tratar com as moças, pelo menos não matar.
Em velório oficial no após formalidades, foge o Judas e sua prometida, que sabida de traída, já tudo se arranjara contra o corpo que agora encarvoado-se em cinza descia os sete palmos tradicionais. Foram a Manaus, depois Bogotá, Panamá City e Chicago. Moram hoje, donos de casa de samba. Das boas, das cachaça. Flâmula da Mangueira, a Escola, Estação Primeira, Verde Rosa, Jamelão, Alegria. Em nessa cidade desligaram TV, após esse drama tele in visível, numa Globo Internacional.
enviada por Gustavo Alvarenga
18/12/2005 17:26
Do Velho
E que há sempre um cheiro nostálgico no ar, quando em Santa Tereza, propomo-nos em ir almoçar. Bolão, rei do espaguete, praça, crianças, famílias, acordes violão, gente, pura gente. Não se estranha um velho, já por de lá dos 70, caquético, bengala em mão, tentando avançar sobre os carros, em grito, queixando-se da pressa apressada de um taxista que lhe tirava o suporte necessário ao movimento. Desalento logo consolado por Bibi, como quem se consola consolando ela adverte-lhe o perigo, oferece o braço, o assento. Realça-me certo olhos azuis profundos, altíssimos e um certo sotaque, não por de mim identificado. Constato, como para aproximar conversa, a origem sotaque, de onde proviera, e quem de si era, ainda. Americano, from New York, from Miami, to Rio de Janeiro, to Belo Horizonte, agora Santa Tereza, sábado tarde, Bolão, um copo dágua, Professor de Inglês, Universidade da Califórnia, San Diego. Em tempo se desinteressou pela literatura, não gostava de nada produzido além de 1800, quis lingüística, saber das leis gerais subjacentes á criação poética, prosaica. Queria o fundo, o detrás, o in-timo, viera a BH. E que aqui há número de butecos suficientes a filo sofar, mas não do etílico que se buscava, mas da cultura que suportaria isso. Era ainda o detrás, o íntimo, intrínseco, voltamos a lingüística. Ali quedamos, no que nos faz ainda e por de cima: Falar. E assim pronunciava com dificuldades, a ainda língua portuguesa que aprendera vinte anos atrás, e se lhe fazia útil ao se nos dirigir, ao pedir um copo dágua, a gritar com o taxista, a renoscontar a pequena breve história que nos justificava o estar ali, diantenos, Santa Tereza, solitário, essa hora. Em tudo se parecia ter passado bem, heterodoxamente construira uma história, de alguém, que a margem da sociedade americana, viera aqui, buscar e talvez, o intrínseco, o intimo, o por detrás, do falatório entusiasmático dos botecos. A beleza da João Pinheiro,. As ruas sempre cheia e arvorosas de Santa Tereza. O velho dos olhos do homem não se diziam em solidão, ou sequer denotava o desamparo que lhe seria tão característico e mesmo esperado. Assim como estava parecia resgnado. O derrame, três anos antes, a vida sem família ou vínculos que se lhe poderiam proteger, cercar. Enfim se já lhe soubera tanto, poderia, talvez, em se bastar. Rodara meio mundo, e se não lhe faltava um passado de sempre a rememorar. Depois a festa de Santa Tereza, parada do Cardoso, moradores antigos, a praça se deu a mão em estado de graça, roda de samba. Vi time de futebol, com um dos Borges, indadolescente, olhar sobrevoado.Santa Tereza traz de volta: passados, rememorados, absortos, enfumaçados... Tempos infantes também se reviraram em um avistar uma casa, onde brincara, tempos remotos que só se traduzem em sensações, reviradas no peito, inda sem palavra... Vi os bares, e me enfureci com a sorveteria frente, a agredir a boemia constante, o por detrás da cultura que o suporta. Deu vontade de sair logo, lugar também que suporta restos, humanos, inumanos, nos casarios, nos remorantes, retirantes, dentro em mim. A soberba igreja da praça, o sempre e insuportavelmente além do tempo Bolão. Não quis Santê, e fui me apartar em bairro novo, de prédios modernos em seus eleva dores... Velho John. .
enviada por Gustavo Alvarenga
07/11/2005 09:21
Certa feita em interior de Minas, Romualdo da Silva, caminhoneiro, casado, pai de 8 filhos, casado com Valdete Aparecida dos Santos, fugiu de casa, após ter ouvido no Rádio, a caminho de casa, que em certa região do Norte, nas proximidades de Santarém no Pará, haviam descoberto mina de ouro, ainda não explorada, e que por desordem burocrática, estava à revelia e de quem custasse ali a explorar. Não apareceu em casa esse dia, revirou o mercedez meia volta, tornou-se para Rio-Bahia. Daria jeito de se atracar no porto ao depois, região longínqua, meio selva, tanto cidade, povo do mato, floresta, garimpo, sucuris. Foi atrás d´ouro, Valdete procurou notícias por semanas até dá-lo como desaparecido na delegacia próxima a sua casa. Chorou com os oito filhos a mentira do falecimento do pai, em acidente de caminhão, longe, muito longe dali, donde o corpo não se traria volta, mas que fora enterrado, meio beira estrada, como indigente. Não quis mais falar no assunto e bem que a todos dias, escutava rádio, esperando a notícia que a aliviaria, a morte de Romualdo, perdido no mundo, em que algum lugar distava, e que nem sequer imaginaria. Teve calafrios, passou fome, voltou à máquina costura, pôs filhos a trabalho na lavoura, no gado, na padaria da esquina. Romualdo perdido em garimpo com algum dinheiro em mão, procurava sorte grande, dessas que lhe poderiam dar reviravolta, não pensou em esposa ous filhos grandes que já estavam. Arrumou-se como pode durante alguns anos no Pará, não quis voltar. Ali arrumara sentido, achou uma pepita certa vez, que lhe valeu uma casa e um fusca velho, que comprara, e sentia no dever, sempre iminente, intermitente, de garimpar. Foi por vacilo que tendo lhe dado endereço ao telefone que com custo mandara instalar que Valdete 3000 km distante, pode saber, via informativo da Polícia, que o fugido fora achado, longe, distante. Quis-lhe cobrar, xingou-lhe Filho da Puta, bem alto, filhos escutaram e choraram, sem mesmo saber porque. Ela teria encontrado modo de se vingar, caso lhe fosse concedida tal sorte, mas não o foi. A viagem era longa, e o homem, mesmo que casado, comunicado, e pedido de volta, via as autoridades locais, teimava em ficar em solo Pará. Interessante de em nada ter-a-ele oportunidade de falta, ou buraco que algum vazio doutro lado do mundo poderia preencher. Desposou Francisca, teve três filhos, ela cozinhava pra ele, e também costurava. Sem o que, ou praque de tudo que lhe fora requisitado, também quis se ir. Certa vez manhazinha foi garimpar e não voltou, conheceu índios akeu akii (gente mansa e pacata) quis morar com eles, bom tempo, sem ser molestado. Viveu na tribo, voltou para cidade, virou mendigo. Sem ouro, terra ou mulher, filhos bastantes, todos bastardos, como ele mesmo do mundo de onde viera e para onde ia. Certa vez quis voltar rever tudo que lhe trouxera, pegou carona caminhão, até Brasília. Ficou ali bom tempo, mendigando e fazendo alguns furtos furtivos a donas desavisadas com bolsas a vista. De lá foi internado em Hospital Psiquiátrico, voltou a rua. Agora como índio akeu akii, que lhe era, em sua nova roupagem, esquecera Romuado e nem se dava conta do Silva. Acho Ana Lúcia, sentada a frente de um bar, esperando o último freguês sair. Ela lhe alimentou, deu-lhe cafuné nas costas, cortou as unhas do pé e da mão e banho. Evangélica, ela converteu Romu, como foi sendo chamado, aos caprichos da divindade, divina idade. Não quis se segurar muito tempo, foi ter com o Pastor, queixou-se de Romualdo, esse lhe ordenara que se lhe impusesse as mãos e exorcizasse demônio que assombrava vida. Romu não era mais. Comprou um bocado de pastilhas, levou a boca, desesperado, fugiu. Em mesma Brasília, foi morto nesse mesmo dia, como índio... Notícia se espalhou Brasil inteiro e Valdete sorriu aliviada...
enviada por Gustavo Alvarenga
21/10/2005 16:32
De todos era receio e falava por gaguejos, palavras entrecortadas, pensamentos que não se concluíam e um baixar de olhos desistindo. Detrás do óculos se escondia e nutria uma mania de sempre coçar a barba quando confrontado. Não se sabia bem o porque de que sempre, mesmo não tendo o muito que falar, aparecia junto a pessoas, na noite. Trabalhava dia, empresa de contabilidade, de 8 a 5, uma hora para o almoço, depois o transito, a janta, o sono. Quinta, Sexta, Sábado, ligava em gaguejos, para os colegas de escritório, para os ex-colegas de faculdade, e sem recusa, sendo do tipo que não fede nem cheira, era querido. Morava com a Mãe, Cidade Nova, Filho Único, e ela já beirava os 80, Pai morreu muito tempo, e Ele, só, era do tipo que, única ambição, era cuidar, prover e brigar com a progenitora. Para isso saia de casa, calado. Bebia boas doses de Cerveja, de Cachaças Variadas, Whiskies de várias idades e tamanhos, e jamais se vira o alterar de face, típico dos bebuns, ou qualquer gesto que denunciasse um descontrole de si para o Outro. Absolutamente Amigo, desses que se presta a dinheiros, favores, norteios, conselhos.
Em Dia se apaixonou por Beatriz. Era filha de fazendeiros do Vale do Jequitinhonha, gostava de Pequi e mesa farta. Ela fazia jantares pesados, alvo de reclamações da Mãe e de fastio dele. As duas brigavam cotidianamente. Ele se enfarou, mandou a mãe pro Asilo, mudou-se para Salinas. Vive hoje numa Fazenda, cuida de gados e de fazeres rurais. Beatriz levou coice de Mula Brava, sofreu traumatismo. Ele matou a Mula, enfurecido. No velório conheceu Lucimara. Ela artista plástica e tinha um ateliê em Paris. Eles se mudou para lá, a Mãe morreu, ele enviou a quantia para as despesas dos funeral, chorou três dias seguidos, depois passou. Lucimara não o quis mais. Ele se mudou para a Espanha, conheceu Rosália, teve um filho de nome fúnebre, não se compromissou, cansou-se de Rosália e foi para Portugal. Lá conheceu Romualdo, fizeram amizade, ele juntava dinheiro e ia abrir firma de contabilidade, em Belo Horizonte, no centro. Tornaram-se sócios. Saiam à noite. E em meio a discussões de futebol, mercadeos, políticas e obrigações cotidianas, o mesmo olhar cabisbaixado, o mesmo sorriso compenetrado, a mesma face dura detrás do óculos, recusava-se a contar sua história..... Morreu em 2003, atropelamento, em plena Avenida Amazonas, meio dia, por aí, um caminhão da Copasa, tipo Pipa, estava levando água para um bairro afastado. As pessoas ficaram sem água aquele dia, até fazerem o BO. Ele morreu mesmo. Sem destino, sem fim, sem chão, sem alguém. No Velório Contadores, até as 10:00, depois saíram pra beber o defunto. O corpo ficou ali, esquecido, à sorte, ao vento forte de Julho, sem história, sem memória. Vida que simples, pairou um tempo sobre o Mundo, e se desgastou... Como ele se chama mesmo? Não, não inventarei um nome a esse que viveu, já morto não apela sequer identidade, o autor está estupefado, transtornado, sua própria criação, inócua, paira agora só no caixão, tal qual esse texto que se despede anônimo, a quem se endereçar....
enviada por Gustavo Alvarenga
14/04/2005 14:36
Astúcia
Não era por falta de astúcia que se dirigia sempre ao mesmo local, todos os dias, à hora do crepúsculo, a espera de alguns trocados de que porventura motoristas pudessem lhe oferendar. Dizia sempre mesmo: Moço to com minha filha doente no hospital o senhor poderia me ajudar a comprar algum remédio para ela. Até às oito trabalhava, depois batia vontade pura, de cachaça. Passava noite se embebendo, até não se poder mais, depois dormia: albergue. Acordava ressacado e pronto a se de novo, oferecer-se. Subia o alto da Pedreira Padre Lopes, soltava pipa com os moleques, costumava pular corda com as meninas, ou mesmo, no que da sempre a batuta poderia lhe proporcionar, socorria-se nos jogos, isso já pelo meio dia, na praça sete. Era de quase nenhum pertence, a mesma bolsa, herdada do avô, cargando uma velha calça, um lenço e um quase nulo pente que recolhera na rua. Descuidado é que não era; o mesmo banho nos fundos de um estacionamento à mesma hora que se preparava para o laborioso trabalho de pedir. A filha fictícia, a doença e a morte que rondava os Eus não precavidos, já lhe fora, antes, sinal de um nada bem, mas ao que hoje, repensado as oportunidades, em si se conformou. É que em outras ficções não se coubera, e essa última, pareceu-lhe a mais que se lhe propiara. O lado do espelho que retinha de uma vez, eram de outras faces por si escondidas, tempos remotos de um não sei o que que vivera no Norte, já não de si se alembra. Houve apatia, certa feita, mergulhado em sua lida. Correspondido que não foi de um amor que cativara, como sempre, muito além do desamparo alheio. Em meio se vagueou pelo mundo fora, e nas montanhas, sem saber por que donde o acolheram. Em muitos se tentou: porteiro, zelador, ajudante de oficina, caseiro em um sítio na região de Nova Lima. Faltava-lhe, todavia, a substância de em ser de si de próprio, o jogar-se na rua, o mentir, já lhe proporcionava, além de mais dinheiro, certo prazer incontido de olhar no olho e se fingir. Mas é que de dentro tudo fazia sentido, algo em nele se reconhecia doente, talvez fosse mesmo filha, talvez meio mulher, talvez meio criança, e às vezes apegava-se em nisso quando ao mirar a Misericordiosa Casa Santa, tendia a querer em ter alguém a quem se ocupar. E como não tinha, e como lhe era custoso de si se doar, no depois do desfecho, confortava-se com o reconhecimento alheio que apostava na existência dessa menininha moribunda em algum leito imaginário de um hospital. Não era só dinheiro, era o reconhecimento de uma verdade que se fazia acreditar para se manter, era muito bom. Depois a não filha, o desalento, o desapego, a vontade pura de se... A cachaça, os cotidianos assuntos dos cenários das vias. Poderia bem de ser a vontade se lhe ganhando a cachaça imunizadora, nesses dias parava no Raul Soares, outros imunizantes industriais vinham lhe cobrir o desalento, e parava. Sonhava com um mundo outro, oras vezes, e isso já não lhe causava transtornos, nesses tempos brincava de boneca, felicitava com gracejos e vozes infantis quem quer que fosse ao mínimo se lhe dirigir olhar. Findo o Hospital, as ruas trafegadas de gente. Estranha gente que moravam dentro de autos a se movimentar, gente que se compadecia, e lhe creditava verdades. Era ali, em seu território que se de todo doava-se, e lhe cabiam ainda alguns querereres. Apanhou da polícia uma vez, cocorócos na cuca que doíam. Cabeça que já não cria no constante do mundo, uni verso. Versos de sempre se soltavam, em frases distonantes, desconcertantes. Maldita fome de querer, maldita sede de se Ser. Houve tempos em que se desafiara-se a pular do alto do Acaiaca, esse fim já se passou, já não queria assim. Repousa na cama, rádoi de pilha, Itatiaia, olor peculiar, cheiro de gente com pó, roncos, é absurdo estar vivo, é absurdo, pensou: Há de ser muito esperto, astuto!
enviada por Gustavo Alvarenga
13/04/2005 21:41
Tempo
Afonso Pena essa hora sempre engarrafada. Sinal fechado, mãos do lado de fora da janela, retro-visor, um amigo de infância, 20 anos sem ver, reconheceu-o de pronto. Menção não fez em fazer nenhum gesto que lhe denotasse a presença, dado tanta ausência em tempo na irrisória geografia que separam autos, em Afonso Pena. Olhou mais, viu os gestos do amigo, a mão no queixo, o olhar vagaroso para nada. Foi-se rememorando, cenas de um outubro em Santa Maria de Itabira. Viagens para um certo sítio em Conceição do Mato Dentro. Amigos comuns. Dirigia-se uma Kombi, dessas que entregam comida congelada, ou uma Van. Sorvia na boca uma goma e parecia feliz, embora inculto. À frente outros carros e várias ultrapassagens ainda por fazer a se chegar. Chegar no instante em que reunião o esperava. Teria mil assuntos, cafés, discussões, e uma volta à casa, fim da noite. A solidão do lar não lhe aprazia, era sempre o mesma coisa, o mesmo modo de estar com a esposa, a mesma fossa do filho mais velho, e há muito os assuntos eram os mesmos. Hoje, não sabia se contava ou se reservava a si, a intimidade necessásria de pelo retro-visor ver-se em passado e apenas espiar, sem o incomodo do recíproco olhar. È que dos veículos só se vêem de trás. Amanhã de tudo novo começa, à frente. Silvos contínuos, hora de arrancar, setas se ligam em laterais, o lado proporciona a vista mútua, poderia, se quisesse, dar a si de vista. Mas não o soube, ou buzinavam-se demais, ou não quis, as faixas se desfizeram em trifurcações. Do retrovisor já o amigo não via, tampouco nenhum, dos tantos que estavam. Desde aquele dia os dias pareciam-lhe sem fim, é que além de seu passar e do seu a fazer, os fantasmas do feito, do desfeito e malfeito e não feito, o assombravam, desde manhã no recordar do sonho. Passou a se demorar muito em algumas coisas, e reviu fotos infantes, falantes. Volveu certo dia às cidades, sem falar a ninguém. Escrupuloso como era, não se sentia em vida obrigado a se pronunciar sobre o que de dentro, eram peças museus revivadas, despudoradas. Sentiu estranho, ao procurar certa vez, mesmo sem saber o que era, numa dessas máquinas shopping center. No mais, pairava, como uma folha despetalada, desenraiz. Futuro foi sempre presente, atenuado pelo padecer contínuo dos corpos. Tomou café esse dia, depois banho, reparou numa marca entre coxas, pequeno rasgo de cascalho daquela vez em Santa Maria de Itabira... .
enviada por Gustavo Alvarenga
21/03/2005 23:24
Palavra
Não confio em seu poder e tampouco deposito nela o lugar do meu nascedouro. Para mim são fios pequenos, morféticos que ora ou outra unem massas informes de emoções e sentimentos a outras massas. Ela é um ponto de tessitura, um modo de se acanhar, de se iludir, de se crer. Ora ou outra se despreende e quando semântica, pairando no ar sem essa massa que te dá vida, torna-se concreta como uma pedra. E que sem ela o possÃvel de se comunicar se esvai, mas sem sua matéria prima, volve a nada o que não era.
enviada por Gustavo Alvarenga
21/03/2005 17:54
Da Distancia.
Você é de Lua,
Cresce, cheia, mingua, nova.
Cresce Nova
Mingua Cheia.
Cumpre seu ciclo benevolente
Enquanto eu Terra giro, giro,
E te vejo girar em torno a mim
Nessa sempre ante-perspectiva.
à que enquanto cheia seu brilho me cega.
Enquanto mingua sofro o seu desaparecer.
E se se renova e some no espaço sideral
Deixa-me como consolo o brilho reluzente das estrelas
Mas a sempre certeza de te ver crescendo novamente em meu céu.
Sou teu eterno amante a mirar teu giro
Tentando a custo não perder tua vista.
Que me resta nesses tempos é esperar o inverno.
Que do céu se dissipem essas nuvens chuvas.
E do frio possa te ver sempre e sempre, em céu claro
Amargura-me a saudade.
Sou sim esse a te observar,
Da sala de visitas te fito longe.
Da serra do curral parece-me eqüidistante.
No entanto separam-nos
At, Ions e outras feras.
Não sei se supro essa distancia
Talvez aumentando minha gravidade
Ou me dissipo do sol e todavia por toda vida.
Serei seu eterno cometa radiante. a te perseguir.
Não, não, não, não.
Talvez assim eternamente,
Um se mostre ao outro e conduza a simples harmonia
De nos ver refletidos.
Que ambos possam, quando o tempo assim o permitir.
Embelezar o céu um do outro.
E a distancia seja nosso modo de nos sempre nos harmonizar
Se nos incomodar lembremos sempre
Que quando nos aproximemos meteoritos se espatifaram uns nos outros
e nos machucamos.
Miremos sempre da distância que a natureza assim nos quis.
Eternos amantes contemplativos.
enviada por Gustavo Alvarenga
13/02/2005 10:06
Inferno
E que dentro vivia um inferno pessoal e já ia se completando 50 anos. Fez uma grande festa, boca livre, amigos todos, filhos todos, eram mais de 15. Por ironia, à hora dos parabéns, o Sérgio tocava Raul: Eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou um dito cidadão, respeitado e ganho quatro mil cruzeiros por mês. Os outros festejavam, muitas felicidades, muitos anos de vida.
enviada por Gustavo Alvarenga
02/02/2005 12:43
Na Cara
Foi quando jogando bola, notou com espanto que se concentrara demais nas pernas já cabeludas do Renatinho. Sentiu arrepio, mas não se atreve a dar por si de conta. Veio a primeira namorada, por quem sentia alguma repulsa, quando, ousada, roçava seu pênis de forma mais persuasiva. Manteve uma sincera amizade, e foi com quem, mais tarde, conversando sobre os tempos de juntos, que acabou se inventando. Inventou-se Gay. E Gay passou a ser. Pelo tempo foi se sendo, todavia, encoberto: famílias, trabalhos, convenções sociais. Não se queria assim diante a muitos que o olhavam, e acabou se nutrindo de uma constante mania de ser visto. Enjaulado que era em seu desejo, se reprovou. Quis suicídios, quis embora pra Paris, quis se travestir. Passadas as delongas, foi se dar com Marcinho, apaixonaram-se, viveram juntos, anos a gostos. Em por fim, não se suportaram mais, mais ao depois já se queria só e como era. Morava sozinho em Santo Antonio, era das Artes, das Letras, das Plásticas, mas se sustentava com os cortes de cabelos. Foi tendo assim, vida boa. Elegante, freqüentava as altas rodas da high society cult belo horizontina, e aos poucos se escavando com yoga e análises, foi se achando. Agradava-lhe o estilo bicha quando em vez, indispensável à conquista da simpatia da clientela do salão. Sabia-se viril também, e se gostava ao se ser, quando, com entusiasmo expunha seus artesanatos aos homens de boa fé, que ora ou outra, na feira de domingo, comprava suas obras. Namorou, de novo, não quis mais. Se meio que promiscuiu-se um tempo. Viveu platonismos, sentiu-se sozinho. Quis também mulher. Ao largo se escolheu em solidão. Amigos vários, de todas as estirpes, amigas confidentes, confiáveis. Era bom ouvinte, e lhe era fácil nutrir-se em simpatia. Empatizava-se sobretudo com donas de casa carentes, e lhe conselhavam as artimanhas dos relacionamentos. Assim se passava em vida, e vida se lhe passava. Bem que um dia, de pronto se arrumado, pronto a ganhar noite, pensou de si não pertencer. Deu-lhe um estranhamento, uma náusea contínua, um sentimento de despertença. Atribulado reconciliou-se, pensou em ser nada não, frescuras de bicha. Foi se a night, regada a balas e doces, néctar dos prazeres. Sentiu ânsia, sentiu fome, sentiu tesão, transou, lambuzou. Sentiu vazio depois, deitado na cama de um motel barato com um rapaz malhado ao lado. Olhou-lhe muito o corpo, olhou-se seu corpo. Os corpos meio a meio na cama e o vazio de esperança. Deu-se um suspiro. Não se conteve, mordeu o rapaz, até lhe tirar sangue, ferindo-lhe ainda a tapa, e unha. O moço não entendeu, mas como o corpo lhe sobrevivia, tentou apaziguar. Não sem remorso, foi lançado contra a parede, humilhado com gritos dilacerantes, de doer fundo. Imaginou cortar um pedaço do rapaz e guarda-lo para sempre em formol. Imaginou matando o rapaz, Imaginou-se matando. A cena não lhe abandonava, enfim quis volver a casa. Tomou ainda um copo de vinho e tentou dormir. Teve pesadelos. Acordou sobressalto, comeu uma maça, e lá no fundo, bem no fundo, sentiu um dente se quebrar. Lembrou que tinha tomado na cara.....
enviada por Gustavo Alvarenga
30/01/2005 15:39
Sonhos
Bem de manhã ela se levantava, sem pestanejar. Era bom viver: seus cachorros, o barulho dos pássaros, o homem que lhe estava ao lado, tudo a lhe envolver, e ela envolvida em tudo. Fazia café de manhã e cantava. Aguava as plantas, pagava contas, dizia-se sempre bem. Cativava gente, que vinham de longe só para revê-la, e se fazia biscoitos, tortas, lindos bolos confeitados, roscas trançadas, açucaradas. Depois ouvia-se Chico Buarque, esperando. Também era dada às pinturas, e se dedicava horas a se imprimir em tela o que se viva. Eram sempre paisagens vivas, mas de cores suaves, serenas. Era bonita, e disso sabia, mas não de uma beleza monumental, dessas que ao atrair se se inibe. Era beleza constante, refletida nos olhos e evidente no sorriso de dentes brancos, enormes. Angústia funda, bem guardada. Certa vez ficou em dúvida se se amava mesmo o homem, pensou no Cláudio, aquele dos tempos da faculdade, ligou pra ele de tarde, só para ouvir-lhe a voz, desligou prontamente. Nesse dia ficou pálida, baixou pressão, vomitou. Ninguém viu ou sabe, e ela guarda fundo, magoar que não iria quem quer fosse, embora tivesse muita dificuldade em mentir. De sua mãe trouxe as prendas de uma boa mulher do lar, ligava-lhe contando os detalhes das roupas, das casas, dos a fazeres. Dizia-lhe sempre de bom modo e lhe visitava constante aos domingos. Não lhe tinha dedicada ainda a vida aos descendentes, preferia esperar, viver só pareceria-lhe mais confortável, inda mais que já se lhe tinha tanto o que fazer. Num canto do armário bem atrás das gavetas, escondia cartas a si mesma, e nelas estavam impressos seus sonhos. Passou-lhe uma vez uma idéia escondida, que logo esqueceu, mas de em quando, sentia certo aperto no peito, que não sabia o que era, nesse tempo chorava, chorava à toa. O céu lhe acalmava e quedava mirando o poente, esperando as primeiras estrelas luzirem. Teve medo, certa vez, de tempestade. Ficou imóvel num canto segurando um travesseiro. Quando o homem chegou abraçou-lhe forte, e dedicou-lhe um longo beijo, que jamais talvez lhe houvesse dado antes, depois dos votos. Lá não muito lhe apetecia o sexo, fazia-o rigorosamente quando solicitada, sem dor, pavor, com serenidade, mas sem tesão. Gozava era com as plantas, os quadros, a culinária. Sentia-se invadida de uma felicidade repentina, quando, após o coito, passava um café. Não lembra de quando o amor lhe fora bom, talvez nos tempos antes, mas não lembrava, e uma angustura enorme lhe dobrava em lágrimas. Certo dia, porém, não quis acordar, por mais que o homem a ela implorasse, disse lhe que sentia frio, e queria o quente das cobertas. Levantou às 10:00, sem mesmo saber pelo que. Chorou o dia todo, e sentia dores no abdômen. Pensou em morte pela primeira vez, rezou um pai nosso, uma ave maria, melhorou. Teve tempo ainda de sobra para receber pessoas. Desde esse dia, não foi a mesma, mudou algo. Um a um foi definhando o armário, retirou alguns sonhos por detrás da gaveta, e não se sabe o que aconteceu...
enviada por Gustavo Alvarenga
25/01/2005 18:26
Era uma Vez
Engenheiro. 45 anos, casado, pai de três filhos, proprietário de 2 carros próprios, um apartamento no Perdizes e uma casa em construção em Ubatuba. Trabalha numa multinacional de renome, seus filhos, torcedor do São Paulo, não perde um jogo. Levanta todos os dias às 6 da manhã, dá um beijo na esposa e bom dia. Leva um das crianças ao colégio a caminho do trabalho, joga futebol semanalmente com os amigos da Mooca. Faz caminhada ao fim da tarde no parque Água Branca, é hipertenso e tem colesterol alto. Parou de fumar quando tinha 36 anos no dia de seu aniversário. É católico. Vai a missa quando em vez com a família e os filhos. Tem medo da morte, reza para não morrer. Compra ações na bolsa de valores e sonha passar um reveillon que seja, em Nova York. Tem vários amigos, apelidam-se de batuqueiros, pois promovem um samba regado a cerveja e churrasco nos fins de semana, na casa do mais afortunado, no Butantã. Diz-se satisfeito com tudo, quando cansado joga playstation com os filhos e quando muito, vai pescar no pantanal. Recebeu uma placa da empresa que trabalha congratulando-o por 15 anos de serviços bem prestados, foi um dos dias mais felizes da sua vida, depois foram comemorar numa churrascaria a rodízio, a empresa pagou tudo, sentiu-se orgulhoso, cheio de si. Depois bebeu até, ficou tonto, caiu de bêbado. Todo mundo riu, consentiu, foi levado para casa pelo Jorjão, melhor amigo, desde os tempos de colégio. Riram até. Joga futebol até bem, marcou um golaço uma vez, deu um chapéu no Quinzim, chutou de primeira no ângulo, foi lindo. O jogo era decisivo, e o time empatava em 1 a 1, todos o abraçaram, sentiu-se todo dono de si. Nesse dia muitos elogios, muitas felicitações, dormiu sujo, bêbado, em êxtase. Também lhe fizeram festa surpresa em um de seus aniversários, não lembra qual, ficou feliz também, beijou a esposa. Sentia-se irritado ás vezes com o transito, com a derrota do São Paulo, com uma multa injusta que levou certa vez de um guarda. Cerveja quente e política também o incomodam, além da demora da esposa em se arrumar ou quando ela abusa do cartão no shopping. Gosta de músicas simples, com melodias de poucos acordes e letras singelas e repetitivas. Veste-se empresarialmente de dia, e caseiramente à noite. Tem um segredo: medo de escuro e de abismos, nunca contou isso a ninguém, embora o filho mais novo desconfie. Gosta de calcular e passa horas se debatendo em estatísticas sobre probabilidades improváveis, com isso se diverte, passa o tédio. Quando muito aflito rouba uns livros auto-ajuda da esposa, acha interessante, mas desinteressa-se tão logo ela se mostra interessada também. Certo dia vai morrer, dia X, hora N, cálculo improvável de ser probabilizado. Não se prova. Quando morrer uma angustura deve tomar no peito, um aperto imenso corpo inteiro, suará em bicas, e resignado fechará os olhos para o descanso eterno. Lembrarão dele como um homem Bom. Ele porém minutos antes de ir, lembrar-se-á que aos 9 anos, numa peleja com a turma do Manezim, acabou tendo sua bola furada, pela turma dele, nunca mais chorou depois disso...
enviada por Gustavo Alvarenga
21/01/2005 20:25
Vivendo
Vida é procura incessante que não se acha, e quando se aparece plena, logo se esvai. Não merecia nem ser nomeada substantivamente é verbo gerúndio sempre. Artigos não há que possa cercea-la, enquadra-la, defini-la. È sempre essa coisa incerta, esse algo impreciso, esse fluido constante. Tampouco estaríamos e poderíamos dizer sobre ela caso não estivéssemos de dentro, vivendo. Assim dizer qualquer coisa a dizer já não é dizer autentico e a palavra nos escapa, artifício construído para nos mentir. Tem-se medo é verdade, de se diluir. Inventemos um porto, um sonho, um mundo, penduramo-nos nele. Fitemos com estranha severidade um algo a construir, que logo se some. Não se basta, embora tendamos ao delírio de em nós nos bastar. Não nos cabemos, desituados em terra inóspita, trilhemos. Floresta fechada, misteriosa, obscura a nos desafiar. Mas que será isso? Essas artes, esses sonhos, essas bobagens ilusões? Em que e o que nos prende, impulsiona a querer o simplesmente estar? Espaçam as metafísicas, os fundamentos últimos, o caminho verdadeiro, paira em todos a negação desse nada, púcaro vazio a suplicar incognoscível. Não se sabe, não se sabe, e é irrisório esse saber, ele se desfaz tão logo o primeiro vento do acaso o atinja e descontrói, a casa feita, o lugar seguro. Viver na angústia parece. Embebecer-se até... Ou acreditar, enfim, fazer-se acreditar que o plano certo, a linha reta, em lugar nos conduzirá, acertará. Não, não, não, não... Linhas retas tendem ao infinito e daí não se terminam, não se concluem. Sonhamos coisas pequenos e realizemos, pequenas coisas, de todas nos gozemos, nos sofremos. Pois sim. Na calada da noite quando a solidão enfim emvem, que é de esperança é desespero, por detrás da escrivaninha, rumino complacente o desespero de tudo, vingo o mundo, minhas letras vão lhe definhando o sentido aparente que tiveram a audácia de me vender. Tentar recuperar minhas podridões surrupiadas por sua roboticidade. Por detrás da escrivaninha me vingo do mundo cão e rio, rio, rio, rio: de escárnio.
enviada por Gustavo Alvarenga
20/01/2005 03:39
PIMBAS: introduzindo um conceito, levantando problemas....
Epígrafe:
Muito Boa.
Introdução:
Esse texto tem como intuito.......... blá blá.blá. As pesquisas em torno desse tema....... blá blé blá. No entanto.......... blá, blá. Blá. Assim........ blá. blá. blá.
A concepção não é do autor, mas foi tecida por várias pessoas que fazem parte de seu ciclo social, pessoas importantes, interessantes, inteligentes. Tudo começou quando Netun (2004: 20:15) disse-me esse termo referindo às garçonetes da Livraria, Café, Restaurante, Bar Dançante da Travessa. Disse Netun (2004; 20:15) Hum... mais uma Pimba. Pensei a princípio que se tratava desses termos coloquiais, dentre tantos já ouvidos, para se debochar sobre a sexualidade alheia, o que me desinteressou.. Como o simpático e altivo bom jesuense não se cansava de repetir a palavra, meio que pra me provocar questão, intercalando-a entre casos de Bom Jesus e projetos de fotografia, tive que parar de fazer de entendido e perguntar, descobri que se tratava de uma sigla: Pseudo Intelectual Metido a Besta Associados. PIMBA. Achei então uma palavra que denotasse tudo aquilo que sempre pensei de tantas pessoas que freqüentam a noite belo horizontina e que até então me utilizava de vários adjetivos muitas vezes imprecisos e dúbios demais. PIMBA, resolvido o problema, a partir de hoje, serei um exímio diagnosticador de PIMBAS e cuidarei para que o conceito se difunda e que tenha seus desdobramentos. Fiquei com o PIMBA na cabeça e numa das conversas com Corrieri (2004: 11:45), ela me dizia sobre como se fantasiar de PIMBA, Bastava, segundo a autora, segundo ela, usar uma armação de óculos grossos, daqueles quadradão, cores variadas, não importa, o cabelo, de preferência estilo chanel, vestidinhos retalhados, comprados no Mundo Mix, ou quiçá no Feira Shop, e uma bolsinha estilo reciclada e pronto, estava feita uma autêntica PIMBA. Achei interessante, perspicaz a observação, dizia muito do estilo PIMBA Fiti ou PIMBA Humberto Mauro, é verdade. No entanto não bastava para categorizar todas as PIMBAS da cidade, pensei então em criar sub categorias, e nisso ajudou-me Mandetta & Torga (2005: 2:48 da matina). Certa vez no Tudão tomando umas, expus o conceito e elaborando-o logo percebi a diversidade de PIMBAS existentes, achei então que mais rigoroso seria expô-lo em subcategorias. O problema seria a partir de então pensar quais critérios poderiam ser usados para subclassificar PIMBAS. Classe social? Seria por demais preconceituoso e elitista, tá, tudo bem. Existe Pimba pobre, Pimba rica e Pimba meio quebrada (classe média), mas indiferente a isso parecem que as Pimbas não se diferem tanto pelas classes sociais, embora seja um quesito importante, sem dúvida. Mas quem disse que só existe Pimba pobre no Maletta? Não é verdade. Pimba rica pode até se fazer de mais Pimba freqüentando aquela Lameta e depois comendo no Janaína, apenas para se reiterar como Pimba autêntica. Sim. Vez ou outra, escondida vai na Cantina do Lucas, mas isso, com raras exceções. E como não dizer que Pimbas pobres completamente quebradas não deixam de ir ao Café Status, apenas tomar um café, cumprindo seu ritual de PIMBA. O leitor esperto já entendeu tudo. O critério escolhido, pelo menos no início da construção será geográfico. Isso. Pronto. Por Bairro? Sim. Mas não. Embora exista a PIMBA centrão, dificilmente se vê uma Pimba comendo no Mc Donald´s do Shopping Cidade, isso ela fazia antes de se tornar PIMBA, logo o bairro não é um bom quesito classificatório. Pimbas se movimentam, é verdade, mas há sempre um lugar onde elas aparecem em toda a sua tipicidade. Assim existe Pimba Maletta, pronto, bem destacado e preciso. Claro que no Maletta existe a Pimba Xoc, Xoc, e a Pimba Lucas, além das Pimbas punks, não, punk não é Pimba, definitivamente. Tá bom. Vejamos o que caracteriza uma Pimba maletta, hum. Antes de avançarmos seria bom esclarecermos algumas características gerais das Pimbas, coisa que didaticamente ficaria melhor no início do texto, mas... Vamos lá. Pois bem. Atentamos ao termo Pseudo, do grego psêudos: enganador, falso, mentiroso. Intelectual: sobre isso não vamos encontrar consenso. Metido: Isso mesmo, metido. Besta: é quem tá lendo isso aqui até agora, achando que o autor não é uma PIMBA. Tudo bem, muito esclarecedor. PIMBA é isso nada mais. Em termos pobres: trata-se daquelas pessoas chatas que acham que sabem tudo e ficam o tempo todo delirando com um conceito que acabaram de aprender, citando o tempo todo autores que nunca leram, repetindo aquelas frasesinhas feitas que o professor usa para se fazer compreendido por Bestas que nem eles. Ai que Bom. Tá definido. Bom. Bom. Vamos lá. Estávamos falando da PIMBA Maletta, depois trataremos da PIMBA Cafés, da PIMBA Fafich, PIMBA Letras, chatíssima, PIMBA rua da Bahia. O problema é que em todas essas categorias há ainda vários desdobramentos. Pensemos. PIMBA Café com Letras é diferente da PIMBA Status, não? Hum. PIMBA faficheira Pronto. Acho que nem dá espaço para falar de tantas PIMBAS. Não vou categorizar também a PIMBA Maletta, to de saco cheio desse texto, já to me sentindo demais PIMBA. Espero, contudo, ter alcançado o objetivo desse texto qual seja, lançar luz sobre um problema tão relevante e controverso, e que, no entanto, carece de pesquisas mais pormenorizadas que venham a corroborar com o tema em questão. Outrossim, esse artigo vem a ser de suma importância para todos os pesquisadores das áreas do saber humano, que se interessam pelo riquíssimo e vasto cenário onde se faz e refaz e perfaz o palco da vida. Pimbíssimo isso. Sensacional. Termino citando Gomes et al: (2004: 5 horas da matina): Tudo que se faz por amor é coisa de boiola.. Muito Bom isso. Nossa !!!! Tem algo mais a ser dito....
Considerações Finais:
Como um Pimba resuma todo o texto e deixe uma frase impactante no final, cite um autor fudido, mas não use clichês, seja discreto. Pegue aquelas frasesinhas apud de algum comentador, que tal?
Referencias Bibliográficas:
Abuse, mesmo que não tenha lido nada. Cite algumas coisas em Francês e em Inglês, é chique. Procure estar atualizada, mesmo assim, cite uns classicozinhos básicos, típicos. Ah cuidado para não se esquecer como se escreve Niti, cuidado. .
Adendo
Esqueça da responsabilidade social que você tem enquanto elite intelectual brasileira. Preocupe com os pequenos problemas, sua vidinha besta, seus hábitos perfeitos, suas nomenclaturas, valorize os títulos, queixe-se sempre, preocupe-se com pequenos problemas que, na vida, são notas de rodapé. Fome, Miséria, Injusta Distribuição, problemas de um país subdesenvolvido são deveras piegas para serem discutidos. Agir? Nunca. Passeatazinhas básicas de vez em quando, assine uns abaixo assinados, grite palavras de ordem e compre uma camisa do Tche, está feita.
enviada por Gustavo Alvarenga
13/01/2005 02:15
Mesmosempre ou Inércia II.
Mais de uma noite meia, vazia. Sozinha, ela tenta se achar, num ou noutro que lhe dê a devida atenção. Enquanto o Eu perdido não vem, bebe. Cerveja música na mesa do bar. Conversas efadonhas, mesmosempre, repetindo-se. Ela desproveitosamente sai de cena. Tenta-se reaver no fundo, pensando, pensando. O álcool no sangue, as veias abertas, o meio desequilíbrio do corpo. Não pensa em se morrer, mas de tanto, acaba que se matando. Pensa em famílias, em dinheiro, num possível casamento, num problema de serviço, na roupa mal arrumada da mulher do Zé Pedro. Desce-lhe outro gole de cerveja, olha pro escuro, no fundo. Pensa em se ser feia, vai ao banheiro. Vê-se. Olhos desalentos, amargura de ontem, desgosto na pele. Pensa em ir só, primeiro táxi. Volta a mesa, toca telefone, não há de ser..., sente descompasso no peito, arrepia. Desce mais Uma. Não atende. Á mesa ao lado alguém a esperar, vê a amiga, respira. Chega-lhe perto, o aperto, o abraço, o rever de sempre. Senta-se. Longos fios se tecem no entre. Sentem-se confidentes, choram-se, abraçam-se, se entendem. A noite inda há de ser de muito longa e aqui. Telefone retoca: Mensagem. Olha o meio fio, meio fio. Não há de ser nada em novo, mesmosempre. Imagens do pretérito percorrem-lhe, sente nulo. Amiga ta ali, a se novidar. Ouve resignadamente, ab sorve. Loucuras. Desce mais Uma. Mesmosempre também sente. Olha em rededor, telefone público. Festas programas, no futuro, amanhã. Quem vai? Onde? Como? Desliga Celular. Pega pulso da amiga. Outros fios se retecem, sente-se tecida. Olha o copo, refresca-se. Acende um cigarro, pensa em tomar vinho. Lembra do Banco. Desiste. Religa o aparelho, nova cena. Em meio embriagada telefona. Re liga. Caixa Postal. Angustura. Tenta escrever, tenta pensar, tenta fugir, tenta se haver, mesmosempre, mesmosempre. Amanhã?
enviada por Gustavo Alvarenga
03/01/2005 04:50
Inércia
...Era esquipática. Isso todos sabiam. Mas não deixava de ser notada por outros atributos, como uma beleza sutil, que se via quando se lhe notava mais os olhos, e uma certa displicência no trato social que cativava, sobretudo os mais interiores, como ela. Morava sozinha, tinha 27 anos e era dentista. Não falava quase dia todo e tinha fascínio por bocas abertas e caladas. Alertava com jeito manso seus pacientes sobre técnicas de higiene bucal, deixava crianças temerosas sobre os perigos da má escovação. Tamanha distancia de si com o mundo nunca entendera porque os pimpolhos depois da primeira consulta, nunca retornavam. Enquanto trabalhava, não escutando voz de gente, cantava. Usava um aparelho Cd portátil quase invisível, que impedia o barulho ensurdecedor do motorzinho tão temido, arrepiar-lhe também. Não era sádica, mas indiferente. Única herdeira de um pai já morto. Não se atrevia a namorar ou coisas do gênero. Não se metia a muitas pessoas e era de poucas, mas fiéis amigas. Nunca confidentes. Para isso tinha a psicanálise, arte a qual se submetia sempre às quartas feiras, com empenho e meticulosidade de dentista. Igual não se desesperava, tampouco se angustiava, o que não parava nunca era de cantar. Foi das primeiras, e talvez a única, pelo que sei, a instituir o critério da trilha sonora, como imprenscindível para a escolha de um supermercado. E ali quedava horas, cantando, enchendo os carrinhos, testando novos produtos, imaginando pratos gostosos e nutritivos para seus fins de semana. Nesses, punha mesa com esmero e cuidado, às vezes acendia luz de velas, cantava Chico, Caetano e Jobim, sempre nessa ordem. E se bastava. Ria de si sozinha. Palmilhava espaços imaginários, nunca antes visitados. Depois, farta, Beethoven, deitada no sofá, olhos fechados vagueava pensamentos em lembranças e projetos, mesmo tempo. E por mais que se pensasse que não, era feliz. Cultivava o hábito de shows fechados, cinema e teatro, sempre só. Bom gosto não lhe faltava, o que a fazia uma pessoa interessante, despertando, às vezes, emoções fortes, em pobres mancebos que se apaixonavam. Pouco se importava. E sua indiferença nada mais que doava um charme adicional aos arredores, que lhe viam como forte presença, por vezes. Conhecida profissionalmente. Independente. Faltava-lhe a substancia mulher, que nunca encontrou. Certa vez cantando, beira esquina na Savassi, voltando do trabalho, viu um menino lhe pedindo, adotou-o. Já com seus 35, custeava-lhe todos os bens necessários. Ele cresceu, deu-lhe uma educação rígida, cuidadosa, mas desafetiva. Ele, por mais que lhe fizesse demandas de amor e não recebesse, não lhe faltou o respeito de filho à mãe única. Com dezesseis quis um pai, fugiu. Nesse tempo ela chorou por dois dias seguidos. Depois voltou a lida de sempre. Não quis mais nada com ninguém. Só não esquecera a música, último recurso que lhe tinha para se dizer....
enviada por Gustavo Alvarenga
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